mercredi 2 avril 2025

Zezé: memórias do exílio

https://www.opiniaosocialista.com.br/zeze-lembrancas-do-exilio/

Partido

Zezé: Lembranças do exílio

Maria José da Silva Lourenço (Zezé)

1 de abril de 2025
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“Luminosa manhã, pra que tanta luz, dá-me um pouco de céu, mas não tanto azul,
dá-me um pouco de festa, não esta, que é demais pros meus anseios…”

Aqueles que têm na origem da sua formação política o poeta Thiago de Melo, a jornalista Ana Arruda Callado, Mário Pedrosa e outros revolucionários de toda a vida, como Nahuel Moreno e Ernst Mandel, não podem se queixar. Essa gente, em seu momento e com suas diferenças, formou toda uma geração que tinha na revolução social seu objetivo de vida, viveram e fizeram a história. Já se escreveu muito sobre os anos 60, vai-se escrever muito mais ainda, e tudo o que se disser será pouco e muito, porque aqueles anos foram anos de revolução. O Vietnam, a revolução chilena, a Primavera de Praga, o Maio Francês, a marcha dos 100 mil no Rio, as vitórias e as derrotas, são demais pra qualquer coração. Só que, ao contrario do que diz o Tom Jobim em seu “luminosa manhã”, nada no mundo é demais pros nossos anseios.

“Você tem que ler. Ele é meio formal, mas você tem que ler. Aí você vai entender que você pensa assim porque vive assim, não é o contrário, você não age em função do que pensa, você pensa desse jeito porque a sua vida é desse jeito. Você tem que estudar materialismo. Anda, lê”.

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Eu lia, ainda que fosse, no começo, muito mais para satisfazer meu amigo Ribamar Bessa, amazonense, que tem tudo a ver com a fundação da Liga Operária. Nos intervalos das aulas na Faculdade Nacional de Filosofia, em 1966, nosso primeiro ano do curso de jornalismo, ele me atormentava com o livrinho do Georges Politzer, “Princípios fundamentais do materialismo histórico”, a pequena Bíblia que abria, para os recém chegados, as portas do paraíso do materialismo histórico.

Politzer era militante do Partido comunista francês e dava aulas de materialismo histórico aos trabalhadores, na Universidade Operária de Paris, que foi dissolvida em 1939 e ressurgiu na dia seguinte à Libertação com o nome de Universidade Nova. Suas aulas foram anotadas por um aluno e transformadas num manual do qual “O Ser social e a consciência” era o primeiro e mais requisitado item do capítulo sobre materialismo histórico, a base para nossa “introdução” ao marxismo. Acusado de reduzir o materialismo histórico a fórmulas estáticas, Politzer perdia prestígio à medida que avançávamos no estudo do marxismo, mas naqueles anos de fome de saber ele era nosso alimento cotidiano.

Mas ainda que não tivesse lido o Politzer, ainda que o Ribamar não me tivesse atormentado com outros livros das Edições Vitória, antigas publicações da editora do Partido Comunista que os sebos negociavam clandestinamente (logo ele que jamais foi do Partido Comunista), ainda que o Jorge Pinheiro, companheiro de lutas por muitas décadas, não me tivesse aberto os insondáveis caminhos de autores como Marcuse, Luckacs, Gramsci, eu teria me aproximado do marxismo. O mundo se transformava, nós nos transformávamos com ele e o transformávamos também.

E líamos, líamos e líamos.

No Brasil, como em todo o mundo, a Universidade era o centro das mudanças e da resistência à ditadura embora nas igrejas, nas comunidades eclesiais de base, em regiões operárias como Osasco e Contagem, antigos militantes prosseguissem sua luta no interior das organizações dos trabalhadores. Mas o que se vivia nas Universidades ia além da luta contra a repressão. Era enfrentar o velho e criar coisas novas, em todos os terrenos. As expressões mais visíveis se davam na arte, na música, na poesia, mas não ficava pedra sobre pedra na forma de pensar e agir de uma camada importante da juventude. Nada ficava isento da crítica e do questionamento, nada devia ser como antes. A juventude começou a ser vista como uma categoria social, uma entidade mais, além das classes sociais, dos gêneros, das raças e dos credos, com cultura própria, idéias próprias, propostas diferenciadas.

Naquele mundo a política tinha lugar, mas não a velha política dos caciques conservadores, que aprendíamos a mais odiar quanto mais aprendíamos a viver. Era a política que exercitávamos a partir das leituras mais disparatadas. Devorávamos ao mesmo tempo o Contrato Social de Rousseau, o Principe de Maquiavel e os livros de Marcuse, Freud, Jung , além – é claro – de Marx e Engels. Íamos da poesia concreta e das canções comprometidas socialmente ao tropicalismo mais alienado, decorávamos as velhas canções da guerra civil espanhola, cantávamos emocionados e com raiva “cuando pases por su tumba no te olvides de escupir”, refrão dos republicanos durante a guerra antevendo a morte de Franco (que não se deu) e nos regozijávamos, ao mesmo tempo, com Caetano Veloso e sua alegoria de Brasília quando inaugurou “um monumento no Planalto Central do país”.

E nos mobilizávamos. As mobilizações eram contra tudo e contra todos, porque “tudo” era a ditadura e suas medidas, “todos” eram os que apoiavam o regime ou se calavam. Combatíamos os acordos MEC-USAID , reformas estudantis que, seguindo orientação do USAID (organização governamental dos Estados unidos para a educação), subordinavam mais ainda a educação e a cultura aos ditames imperialistas e substituíam a formação humana pelo tecnicismo mais alienante; combatíamos a reforma universitária que fragmentou o ensino com a separação mecânica e entre ciências humanas e exatas e as colocou a serviço da formação de mão de obra barata para as grandes empresas; combatíamos o FMI, o pagamento da dívida externa, os baixos salários, a censura política, o que desse e viesse.

Passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro

Mas íamos além: discutíamos o uso do biquíni, o casamento de véu e grinalda, os conceitos de pátria e de família, as tradições, a propriedade, a moda, o aborto e o capitalismo. E principalmente a religião e a Igreja. Tudo está em pauta, nada era para sempre. E nada sagrado, claro.

Nesse clima a ditadura era um disparate, um câncer. A luta contra a ditadura era a condição da nossa existência. Com a ditadura todo o alvorecer se transformava em crepúsculo sem alcançar jamais a luz do dia, ela significava matar no nascedouro o novo mundo que acreditávamos estar construindo. Foi a luta contra a ditadura que determinou nossos caminhos.

Militar numa organização guerrilheira era o estuário natural das forças que vinham se acumulando no movimento estudantil, represadas pela repressão. O AI-5 e o 477, que expulsou das universidades o melhor da vanguarda, empurrou toda uma geração à luta armada. A única alternativa à violência e ao obscurantismo da ditadura era dedicar-se, com armas e bagagens, à luta para derrubá-la.

O MNR era um projeto fora do tempo mais do que qualquer outra organização militarista da época. Oriunda da guerrilha de Caparaó , de 1966-1967, derrotada antes de agir, dirigida por ex-militares, com o apoio de leonel Brizolla e financiada por Cuba, parte da sua direção ainda estava na cadeia, no Presídio da rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. Reorganizou-se depois da reunião da OLAS em Cuba, e se propunha a criar um foco guerrilheiro que serviria de base de apoio à guerrilha do Che na Bolívia. Teve uma vida curta e se reestruturou como RAN após a libertação de alguns dos seus membros na década de 1970.

Era fora do tempo porque se baseava num trabalho entre os militares, que já não tinha nenhuma base social, um resquício das correntes nacionalistas nas Forças Armadas ao qual se somaram intelectuais, artistas, estudantes, para desenvolver as ações na cidade e formar quadros e “soldados” para a futura guerrilha. Estava estruturada como as demais organizações guerrilheiras, com células pequenas, estanquizadas, com estrita separação entre o trabalho político e militar.

Não era difícil captar para a luta armada contra a ditadura. O AI-5 não deixou espaço para qualquer outra forma de resistência que satisfizesse os corações e as mentes de uma geração que vivera o grande ascenso e as grandes mudanças da década de 60. Não sei como foi, mas acredito que não tenha sido diferente,nas outras organizações, mas no MNR nunca houve horas e horas de discussões teóricas ou políticas para convencer-nos, em base documentos, análises estruturais ou de conjuntura, ensaios marxistas ou algo parecido, da necessidade de se organizar.

Numa célula dirigida pelo poeta Thiago de Melo, que dava a todos nomes frios indígenas – Ajuricaba – a militância era um clamor, um permanente “vamos á luta”, um sacerdócio, exatamente o que nós, jovens idealistas, queríamos ouvir. Todos os dias construiamos o “homem novo” que surgiria da revolução.

Nossas reuniões discutiam a situação do país, o que fazer, mas também dedicavam horas para falar do futuro homem novo, aquele que viveria num mundo diferente, sem miséria, sem violências, sem as cadeias do dinheiro, das futilidades, das ambições, um mundo de liberdade e tolerância. Era necessário começar desde aquele momento mesmo a construí-lo, esforçando-nos, a cada dia, para estar mais próximos do novo homem. A coisa não funcionou, como todos sabemos, mas nos tornamos, todos, pessoas muito melhores. Queríamos ser diferentes, fomos. diferentes.

Jorge Pinheiro era do setor militar, eu me dedicava a comunicações. Aprendi com o poeta a codificar e decodificar mensagens, enviadas ou recebidas da prisão, dos dirigentes ou de Cuba e a embutir mensagens em encadernações de livros, sabonetes, tubos de creme dental e outros objetos, tão perfeitas que passavam com segurança pelo controle na prisão; com uma famosa atriz de teatro aprendi a fotografar documentos e revelar as fotos retirando cuidadosamente do filme sua película impressa, para que fosse transportada para o exterior; com a esposa de um militar ligado à Organização aprendi a falsificar documentos. E aprendi por conta própria a transportar, em inocentes bolsas de boutiques, pelas ruas de Ipanema ou Copacabana, as granadas que deveriam ser levadas de um a outro esconderijo.

E transformamos a viagem de “lua de mel”, com meu companheiro na época, numa jornada militante para recontatar e reorganizar militantes ferroviários da região de Além Paraíba.

Ao mesmo tempo, contradição das contradições – militava no movimento estudantil, era dirigente do centro acadêmico, percorria as salas de aula chamando à mobilização e por essa razão fui enquadrada no 477. O Jorge, ao mesmo tempo que fabricava bombas, realizava trabalho sindical entre os jornalistas, escrevia no Jornal de Ipanema, protestava e participava das atividades contra a censura e a repressão; Ribamar fazia do trabalho de repórter uma miltância ativa contra a ditadura e de denúncia dos agentes do DOPS infiltrados no movimento. Era uma demonstração do amadorismo da militância na época: na vida normal, nos arriscávamos diariamente à repressão e colocávamos em risco nosso trabalho clandestino.

Mas aprendemos a estudar. Como um grupo que não era necessariamente vinculado a correntes tradicionais, porque não eram efetivamente oriundos do marxismo, raramente tínhamos que ler documentos produzidos pela Organização e líamos de tudo, ninguém controlava nossas leituras. O livro vermelho de Mao não saía da estante, junto com Regis Debray. Mas havia também Frantz Fannon e seus Deserdados da Terra, havia Luckcas e Marcuse, estavam os clássicos do marxismo e também Antonio Gramsci. Nenhuma censura, nenhuma direção a nos dizer o que ler, no que acreditar, a que inimigos internos combater.

Ribamar foi o primeiro a ter que deixar o país, junto com o Thiago de Mello. Eu e o Jorge Pinheiro saímos depois. Chegamos ao Chile nos primeiros dias de 1971, cruzamos a fronteira para o Uruguai à meia noite do dia 31 de dezembro. Começou assim, no Ano Novo, a saga chilena, nosso convívio com a revolução que marcaria nossa vida para sempre e que fez nascer a decisão de construir no Brasil um partido revolucionário trotsquista.

A propósito de um seqüestro

Entra o documento “A propósito de um seqüestro”, do grupo Ponto de Partida (baixe aqui).

Esse documento foi a base da formação do Ponto de partida, agrupamento que deu origem à Liga Operária. Éramos uns poucos companheiros empenhados em acertar as contas com as experiências dos partidos comunistas e da luta armada e que se aproximavam do trotsquismo. Esse “acerto de contas” sempre polêmico, às vezes extremado, carregado de emoções e frustrações, se deu no processo de vivência da revolução chilena, da reflexão sobre cada uma das experiências dos militantes do grupo, do estudo teórico e das longas e enriquecedoras discussões com Mario Pedrosa.

O velho Mario entrou em nossas vidas pelo doloroso caminho do exílio. A necessidade de fugir da ditadura reunia os perseguidos em lugares imprevisíveis, fossem estudantes, artistas ou trabalhadores em geral. Numa Embaixada se encontraram asilados Mario Pedrosa e alguns estudantes, dirigentes do movimento, entre eles Tulio Roberto Quintiliano Cardoso e Jonas de Freitas, oriundos do PCBR.

A amizade e o trabalho comum entre esses jovens e o velho Mario, antigo militante trotsquista, membro do comitê executivo da 4ª Internacional nos anos 30, enriqueceu o balanço que aqueles estudantes faziam da sua experiência guerrilheira e os aproximou da teoria da revolução permanente. Túlio em particular aprofundou sua reflexão sobre a luta armada, fez dela um importante balanço crítico e iniciou a elaboração de documentos com propostas para a luta socialista no Brasil. Nós apelidamos seu documento de “O que fazer” brasileiro.

Quando eu e o Jorge Pinheiro (Antenor) chegamos ao Chile nossa bagagem política e teórica eram uma profunda perplexidade e uma critica duríssima à experiência do MNR. Era, assim, uma visão pela negativa, de tudo o que não se deveria fazer, mas sem respostas positivas. Não havia descrença na necessidade da revolução e do socialismo, ao contrário, uma profunda opção revolucionária, entusiasmo militante, vontade de fazer, mas não acreditávamos nas organizações, nas propostas ou respostas dos grupos políticos aos problemas colocados.

Tetê Moraes, amiga e irmã de longa data, foi artífice involuntária da nossa aproximação ao trotsquismo. Ela, na época chamada apenas Tetê, nos deu abrigo em sua casa, que por sua vez havia sido emprestada por um casal de professores que estava viajando, e onde já se abrigavam outros companheiros, o Túlio e sua companheira Naná e o Jones. Amiga de Mario Pedrosa, com quem compartilhara aspectos da militância contra a ditadura brasileira, Tetê nos apresentou ao velho trotsquista. Abriu-se para nós um outro mundo.

As discussões foram longas e difíceis, apaixonadas. Tratava-se de construir o conhecimento da realidade brasileira a partir do marxismo, criticar nossa prática anterior, tentar ver a realidade tal como se apresentava e não como a desejávamos, despida do romantismo utópico no qual fomos educados, ser duros ainda que isso nos custasse perder a ternura.

Túlio Quintiliano estava à nossa frente no balanço da luta armada e na aproximação ao trotsquismo. As discussões terminaram com vários acordos, teóricos e políticos, deram origem á formação de um grupo, que se chamou Ponto de Partida, e a um documento “ A propósito de um seqüestro”, que expressava as coincidências estratégicas entre nós, oriundos do MNR, e os companheoros Túlio e Jones. O texto foi escrito ao calor dos grande debate que se abriu entre os exilados, das diferentes correntes e nacionalidades, em torno dos seqüestros do embaixador norte-americano e os outros que se seguiram.

Tivemos a ousadia de criticar a política do seqüestro para a libertação dos companheiros presos. O documento era polêmico, apaixonado, duríssimo na crítica e sem dúvida tinha fortes elementos sectários. Apesar de ter sido escrito por um grupo minúsculo, que já não pertencia a qualquer organização de esquerda, grande ou pequena, nem tinha qualquer influência no movimento ou no país, foi amplamente discutido, questionado, provocou violentas reações de repúdio e tímidas reações de apoio e se tornou um divisor de águas entre a exilados não apenas brasileiros, mas de distintas nacionalidades. Ainda hoje se demonstra essencialmente correto.

Túlio e Antenor, que eram os companheiros que lideravam e conduziam o processo de aproximação entre nós chegaram rapidamente a importantes acordos no balanço da luta armada e também nas propostas sobre o Brasil, mas não assim no que se referia à militância no Chile. Túlio prorizava o estudo da realidade brasileira e as propostas para a luta no país. Antenor, assim como eu, compartilhávamos a preocupação nacional mas nossa ênfase era o desejo de participar ativamente da revolução chilena. Como sempre, pareciam mais fáceis os acordos estratégicos do que os táticos, definir onde queríamos chegar, mas não como chegar. A imaturidade predominava.

Apesar da divergência mantivemos relações políticas importantes e em 1973 se iniciaram discussões para reunificar o grupo e pensar o regresso ao Brasil. Ambas as organizações tinham incorporado outros companheiros. Enio Bucchionni, por exemplo, militava com Túlio; Waldo Mermelstein começava a militar com Antenor. O golpe no Chile impôs outra realidadee impediu essa união: Túlio foi assassinado, Enio foi preso no Estádio Nacional e depois asilado na Europa, Antenor, eu e o Waldo escapamos para a Argentina. Ali decidimos regressar o construir um partido trotsquista no Brasil.

Num quarto de despejo de um apartamento na avenida Corrientes um pequeno grupo se reuniu e votou o regresso e o nome da nova organização: Liga Operária. Uma homenagem à Liga Operária da Mooca, uma das primeiras, se não a primeira organização de trabalhadores imigrantes do início do século em São Paulo. Éramos quatro companheiros: Antenor, Zezé, Waldo e Valderez.

As discussões iniciadas no Chile pré- golpe, no entanto, não foram em vão: Enio se integrou à corrente internacional, militou no partido português depois da revolução dos Cravos e em 1978 regressou ao Brasil e se incorporou à Liga Operária.

A propósito de um seqüestro marcou o início do meu compromisso político e da minha atividade revolucionaria para toda a vida.

Estava tudo lá: não substituir as massas pela ação da vanguarda, a necessidade da auto organização; a necessidade de construção do partido revolucionário; a democracia interna, a necessidade de unificar os revolucionários, a mobilização permanente, o método do programa de Transição, o rechaço ao stalinismo, o “trotsquismo”. Mas também estava o sectarismo, a semente aí já estava plantada e dava frutos. A autocrítica não critica nada, ao contrário, reafirma tudo. Deixamos de ser parte de uma organização “fora do tempo”, quase marginal, para entrar numa corrente. Com suas coisas boas. E seus vícios.

Em vez da poesia, que a todos unia , a dura e fria realidade da luta revolucionaria, suas contradições e seus conflitos internos.

Mário Pedrosa nos apresentou a um militante do SWP norte americano, Peter Camejo. Ele estava de passagem pelo Chile e o visitou para levar um abraço de Joseph Hansen, com quem Mario havia militado no Comitê Executivo da IV Internacional nos anos 30. Apesar das diferenças entre eles (Mario havioa rompido com a IV por diferenças com a politicada Internacional durante a 2ª guerra Mundial) permanecem entre eles a amizade e o respeito mútuo. O sectarismo não era uma virtude entre os velhos militantes.

Através de Camejo e mais tarde do partido argentino, dirigido por Nahuel Moreno, tivemos acesso às discussões que atravessavam a IV Internacional, as mesmas que eram enfrentadas por todo o movimento revolucionário: guerra de guerrilhas ou partidos revolucionários com influência de massas? Encontramos nosso caminho.

Artigo gentilmente disponibilizado por Luciano Freitas. Esse texto foi escrito presumivelmente entre os anos 2011 e 2012, como parte do projeto que a Zezé tinha de escrever a história da Liga Operária. Encontrado nos seus arquivos em 22 de outubro de 2023.


dimanche 30 mars 2025

Cristo não teve pecados

2 Coríntios 5:21 (NTLH)

A Grande Troca – Cristo Sem Pecado por Nós Pecadores

Introdução

Este versículo é um dos mais profundos e poderosos resumos do Evangelho na Bíblia. Ele expressa a obra de Cristo na cruz e o efeito dessa obra sobre aqueles que creem. Neste estudo, vamos explorar três aspectos fundamentais desta passagem:

  1. A santidade de Cristo – "Em Cristo não havia pecado."
  2. A substituição de Cristo – "Deus colocou sobre Cristo a culpa dos nossos pecados."
  3. A nossa justificação – "Para que nós, em união com ele, vivamos de acordo com a vontade de Deus."


1. A Santidade de Cristo

"Em Cristo não havia pecado."

A Bíblia ensina claramente que Jesus foi o único ser humano sem pecado. Ele:

  • Foi tentado como nós, mas sem pecar (Hebreus 4:15).
  • Era o Cordeiro perfeito de Deus, sem mácula (1 Pedro 1:19).
  • Veio ao mundo para cumprir perfeitamente a lei de Deus (Mateus 5:17).

A santidade de Cristo era essencial para que Ele pudesse se tornar nosso substituto. Se Ele tivesse pecado, não poderia pagar pelos pecados dos outros.

2. A Substituição de Cristo

"Mas Deus colocou sobre Cristo a culpa dos nossos pecados."

Aqui está o coração do Evangelho: a substituição penal. Cristo levou sobre si a penalidade que era nossa. Isso é visto claramente em:

  • Isaías 53:5 – "Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões."
  • Gálatas 3:13 – "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós."

Na cruz, Jesus carregou a ira de Deus contra o pecado, pagando o preço que nós jamais poderíamos pagar.

3. Nossa Justificação

"Para que nós, em união com ele, vivamos de acordo com a vontade de Deus."

A obra de Cristo não apenas removeu nossa culpa, mas também nos transformou. Agora

  • Somos justificados – Deus nos vê como justos, não porque somos bons, mas porque estamos revestidos da justiça de Cristo (Romanos 5:1).
  • Somos santificados – O Espírito Santo nos capacita a viver de acordo com a vontade de Deus (Efésios 2:10).
  • Somos reconciliados – O relacionamento quebrado com Deus foi restaurado por meio de Cristo (2 Coríntios 5:18-19).

Esse é o grande propósito da salvação: não apenas nos livrar da alienação, mas nos transformar para viver para Deus.

Conclusão

2 Coríntios 5:21 revela a essência do Evangelho: Cristo, que nunca pecou, se tornou pecado por nós, para que pudéssemos ser feitos justiça de Deus. Isso nos leva a três respostas

  1. Gratidão – Pela graça imerecida que recebemos.
  2. Santidade – Porque agora vivemos para Deus.
  3. Missão – Anunciar essa grande troca ao mundo.

Essa verdade deve encher nosso coração de alegria e nos motivar a viver para a glória de Deus!


vendredi 28 mars 2025

O espírito volte a Hashem

עָפָר יָשׁוּב לָעָפָר וְהָרוּחַ תָּשׁוּב לַה' שֶׁנְּתָנָהּ


A afirmação "o pó volte ao pó e o espírito volte a HaShem que o deu" remete a uma reflexão sobre a transitoriedade da vida e a dualidade entre matéria e espírito. Essa frase tem raízes bíblicas e está registrada em Eclesiastes 12:7: "E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu."


O versículo sugere que a existência física é finita, enquanto o espírito, eterno, retorna à sua origem divina. A afirmação evidencia a inevitabilidade da morte como parte do ciclo natural da vida. O corpo, material, retorna à terra, enquanto o espírito, que transcende o físico, retorna a HaShem. Isso inspira uma reflexão sobre a aceitação da finitude e a valorização do tempo que temos de vida. Essa concepção reforça a dualidade entre corpo e espírito. Enquanto o corpo, perecível, está sujeito às leis da natureza, o espírito, imaterial, está conectado ao divino. Isso leva à reflexão sobre como equilibrar as necessidades materiais e espirituais da vida.


A noção de que o espírito volta a HaShem sugere que há um propósito além da existência terrena. É um chamado a viver os valores eternos, buscando significado e conexão com o transcendente.


A existência de Deus e a transcendência


Ora, se Deus é espírito, como afirma a Bíblia, então Ele está fora do espaço-tempo. Isso nos leva a um questionamento: podemos dizer que Deus "existe"?


Essa questão remete à tradição judaico-cristã, especialmente à afirmação de Jesus em João 4:24: "Deus é espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade."


Aqui, espírito não significa algo etéreo, mas uma realidade que transcende a matéria e as limitações do espaço físico. A hipótese de que Deus está fora do espaço-tempo está presente na teologia clássica. Pensadores cristãos e judeus, como Tomás de Aquino e Maimônides, sustentaram que HaShem não está sujeito ao tempo e ao espaço porque é a causa primeira de todas as coisas. Isso significa que Deus não existe da mesma maneira que os seres existem dentro do universo — Ele é o Ser puro, absoluto, e não um ente entre outros.


A afirmação de que Deus não está sugere um caminho radical inspirado na teologia negativa (apofática), que defende que qualquer descrição de HaShem é inadequada. Nesse sentido, dizer HaShem não está significa que Ele não pode ser reduzido às categorias humanas de ser ou de existência.


Se tomarmos existir no sentido comum do termo — isto é, ser um ente dentro do espaço-tempo —, então HaShem realmente não existe da mesma maneira que plantas, animais ou seres humanos existem. No entanto, essa negação não implica necessariamente ateísmo, pois HaShem é a própria base do ser, e não um ser entre outros.


Essa linha de raciocínio pode ser encontrada, por exemplo, em Paul Tillich, que afirma: "Deus não é um ser supremo, mas o fundamento do ser". (Tillich, A coragem de ser, Paz e Terra, 2001)


Assim, quando se diz que "HaShem não existe", isso significa que Ele transcende a noção de existência no sentido em que normalmente a compreendemos. Se entendermos a frase de forma literal e materialista, chegamos ao ateísmo. Mas, se a compreendermos como uma afirmação de que HaShem transcende a existência tal como a conhecemos, entramos no terreno da teologia mística.


O sentido da vida e da morte


A afirmação de Eclesiastes 12:7 nos remete à humildade diante da grandiosidade de HaShem. Isso deve levar a um senso de desapego em relação aos bens materiais e a uma maior atenção ao caminho da espiritualidade.


A passagem também pode ser interpretada de forma simbólica, sugerindo que tudo na natureza segue um ciclo de transformação. O corpo que volta ao pó é parte de um processo de reintegração ao ecossistema, reforçando a ideia de que somos parte da criação divina.


A afirmação que abriu o texto é um chamado a viver de maneira consciente e alinhada com valores transcendentais, pois o corpo retorna ao pó, e o espírito retorna a HaShem. Assim, no tempo que temos entre o nascimento e a morte, somos chamados a buscar o que realmente importa.


mercredi 26 mars 2025

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samedi 22 mars 2025

A questão árabe-palestina

A questão judaico-palestina

Reivindicações históricas pela terra de Israel

Jorge Pinheiro

 


O terror se levanta em todo o Oriente Médio e se espraia pelo subcontinente asiático. Por que? Por incrível que pareça os motivos estão localizados numa estreita faixa de terra que os judeus chamam “eretz” e afirmam que pertence a eles por direito divino. Será?

 

Assim, para entender um pouco o que acontece hoje no mundo somos obrigados a fazer uma releitura da questão judaico-palestina, ou seja, das reivindicações históricas por esta faixa de terra.

 

O termo Palestina é originário de Philistines ou filisteus, povo Egeu que, no século 12 a.C. se estabeleceu ao longo da planície costeira do Mediterrâneo, conhecida hoje como a Faixa de Gaza. No século dois a.C., após derrotar os judeus, os romanos deram o nome de Palestina à terra. 

 

Em 638, a conquista árabe da planície costeira do Mediterrâneo deu início a 1.300 anos de presença árabe na região. Porém, o país nunca foi exclusivamente árabe. Após as invasões muçulmanas do século sete, o árabe tornou-se gradualmente a língua da maioria da população da região. 

 

A cidade de Jerusalém é considerada a terceira mais sagrada na religião islâmica: as primeiras são Meca e Medina. Acredita-se que Jerusalém seja o local onde o maior profeta islâmico, Maomé, subiu aos Céus. A mesquita al-Aqsa, onde o domo da Rocha foi posteriormente construído, marca este ponto, que é sagrado para os muçulmanos. 

 

Enquanto os muçulmanos lideraram a região, cristãos e judeus viviam em paz, já que eram considerados os povos do Livro. Cristãos e judeus tinham controle autônomo em suas comunidades e era-lhes permitido praticar suas crenças com liberdade e segurança. Tal tolerância religiosa demonstrada pelo povo muçulmano é rara na história humana.

 

Em 1517, os turcos otomanos da Ásia Menor conquistaram a região e, com poucas interrupções, governaram a Palestina, até o inverno de 1917-1918. A região foi então dividida em diversos distritos, dentre eles, Jerusalém. A administração dos distritos foi cedida em grande parte aos árabes palestinos. As comunidades cristãs e judaicas, porém, receberam grande autonomia. A Palestina compartilhou a glória do Império Otomano durante o século 16, mas foi negligenciada quando o império começou entrar em declínio no século 17. 

 

Em 1882, menos de 250.000 árabes viviam no local. Uma parte significante da terra pertencia aos senhores que viviam no Cairo, Damasco e Beirute. Oitenta por cento dos árabes palestinos eram camponeses, nômades ou beduínos. 

 

Em 1917-1918, com apoio dos árabes, os britânicos capturaram a Palestina dos turcos otomanos. Na época, os árabes palestinos não se consideravam como sendo uma nacionalidade em separado. Eram parte de uma Síria árabe. O nacionalismo árabe palestino é, em grande parte, um fenômeno do pós Primeira Guerra Mundial. 

 

Em 1921, o Secretário Colonial britânico Winston Churchill separou quase 4/5 da Palestina – aproximadamente 35.000 milhas quadradas -- para criar um emirado árabe, a Transjordânia, conhecida hoje como Jordânia. Este país, que é uma monarquia árabe, é em sua maioria composto por palestinos que hoje representam aproximadamente 70% da população. 

 

Assim, o conflito árabe-israelense teve origem com a constituição do Estado de Israel nos territórios da antiga Palestina britânica e os movimentos de reação árabe, após um processo que inclui a migração organizada de judeus para a Palestina, a aquisição de terras, a instalação de empresas, colônias agrícolas, escolas e a organização militar dos imigrantes. 

 

A administração britânica na Palestina, recomposta após o fim da 2a Guerra Mundial, adotou uma política de dividir para reinar, apoiando-se ora nos árabes, ora nos judeus. Os dois lados adotaram o terrorismo como forma de luta. 

 

Em 1939, os britânicos anunciaram o White Paper (Carta Branca), um documento relatando que um estado árabe independente e não dividido seria estabelecido na planície costeira do Mediterrâneo dentro de 10 anos. O nacionalismo árabe cresceu com a promessa de um estado forte. Mas, os britânicos não foram capazes de manter sua promessa aos árabes. 

 

O estado de Israel e as guerras na região

 

Em 1947, a Assembleia Geral da ONU e a Agência Judaica aprovam a divisão da planície costeira do Mediterrâneo, mas os árabes a rechaçam. Um exército da Liga Árabe ocupou a Galileia e atacou Jerusalém. Em 14 de maio de 1948, o Conselho Nacional Judeu proclamou o Estado de Israel, enquanto o ataque árabe foi contido pela mediação da ONU e pela superioridade da aviação israelense. Grande parte da população árabe abandonou a Palestina. Em maio de 1948 o Reino Unido renunciou ao mandato sobre a Palestina e retirou suas tropas, deixando a região no caos. 

 

Entre 1948 e 1956 o Estado israelense se consolidou com a migração maciça de judeus, o pagamento de US$ 3,5 bilhões pela Alemanha Ocidental como reparação de guerra, a implantação da agricultura coletivizada nos chamados kibutzim, indústrias de alta tecnologia, serviço militar obrigatório para homens e mulheres e a manutenção de um Exército moderno. Em 1948, foi estabelecido o estado de Israel. 

 

No fim da guerra (1949), Israel ocupou áreas cedidas pela ONU aos palestinos, principalmente na Galileia. Gaza ficou sob domínio egípcio, e a Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, sob domínio da Jordânia.

 

A guerra de 1956 teve origem nas tensões fronteiriças geradas pelo projeto de utilização das águas do rio Jordão por Israel, em 1952. Agrava-se com ataques de comandos árabes (fedayin) aos colonos judeus e a nacionalização do Canal de Suez pelo Egito, com apoio soviético, em 1956. Milícias palestinas realizaram ataques contra Israel do Líbano, da Cisjordânia e de Gaza. 

 

Em 1967, após mobilização de tropas árabes contra suas fronteiras, Israel atacou o Egito com o objetivo de manter o canal aberto e controlar o golfo de Ácaba. Em outubro, com o apoio tácito do Reino Unido e da França, os israelenses ocuparam o Sinai e a Faixa de Gaza em uma semana. 

 

Em novembro foi criada uma força de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo. A ocupação da Faixa de Gaza e a consolidação do Estado de Israel aguçaram a questão dos refugiados palestinos, cuja integração é negada tanto por Israel quanto pelos países árabes. 

 

Em 1967 teve início outra guerra, a dos Seis Dias. Surgiu da reação egípcia contra a permanência das tropas da ONU, o bloqueio do porto de Eliat, no golfo de Ácaba, e a assinatura de um acordo militar com a Jordânia, em maio de 1967. Os israelenses, usando como pretexto o bloqueio no golfo de Ácaba e a intensificação do terrorismo palestino contra Israel, atacam o Egito, Síria e Jordânia em 5 de junho. Conquistam toda a península do Sinai até o canal de Suez (Egito), a Cisjordânia e as colinas de Golan (Síria).

 

A guerra do Yom Kippur teve como motivo a ocupação permanente dos territórios conquistados em 1967 por Israel e a instalação de colônias judaicas. Em 6 de outubro (dia do Yom Kippur ou do Perdão, feriado religioso judaico) de 1973, os sírios atacaram as colinas de Golan pelo norte, enquanto os egípcios atacaram pelo sudoeste, a partir do Canal de Suez. Forçam os israelenses a abandonar suas linhas de defesa fortificada (Bar-Lev) e os campos petrolíferos de Balayim e ocupam toda a área do canal. Contra-ataque israelense obriga o recuo egípcio e sírio, bombardeia Damasco e bases de mísseis e artilharia do Egito e ameaça expandir-se. Em 22 de outubro, a intervenção diplomática soviético-americana impõe um cessar-fogo.

 

Em 1977, Israel iniciou conversações com o Egito, que culminaram em um acordo de paz e a devolução do deserto do Sinai.

 

Em 1993, palestinos e israelenses iniciaram um processo de paz que previa retirada gradual de Israel dos territórios em troca de reconhecimento palestino do Estado judeu. Israel passou a se retirar paulatinamente dos centros urbanos palestinos.

 

Mas Israel seguiu expandindo suas colônias em Gaza e Cisjordânia, enquanto palestinos seguiram cometendo atentados.

 

Em julho de 2000, o líder palestino Iasser Arafat rejeitou uma proposta de acordo de paz de Israel, com devolução da quase totalidade de Gaza e Cisjordânia e representação palestina em Jerusalém. A questão da volta dos refugiados palestinos, que acabaria com a maioria judaica em Israel, era o principal entrave. A revolta palestina contra a ocupação israelense começou em setembro do mesmo ano.

 

O moderno estado de Israel está situado em um território que já foi conquistado por muitos povos: assírios, babilônios, persas, gregos, romanos, árabes muçulmanos e turcos otomanos. O país, localizado na costa oriental do Mar Mediterrâneo, é conhecido como a Terra Santa. Para os judeus, a terra é santa porque lhes foi prometida por Deus; para os cristãos, porque Jesus nasceu e viveu lá; para os muçulmanos, porque Jerusalém é o local da subida do profeta Maomé aos Céus.

 

Em 1948, o estado de Israel foi estabelecido e, desde então, esteve envolvido em guerras e conflitos com seus vizinhos árabes. 

 

Resumo da história dos judeus na terra

 

O laço judeu à terra de Israel data de mais de 3.700 anos. De acordo com a Torah – os escritos judaicos -- Deus prometeu que os descendentes do patriarca Abraão herdariam a terra. A Bíblia revela que os hebreus foram escravizados no Egito, até que Deus o libertou. Após sua libertação do Egito, os hebreus foram liderados por Moisés -- o maior profeta da história judaica -- e levado à terra de Israel. No entanto, foi Josué, sob o comando de Deus, que conquistou a terra, iniciando a penetração hebréia na região. 

 

Os judeus não tinham um nome especial para seu país. Chamavam-no simplesmente “eretz” (a terra), “eretz Israel”, “Israel”, “Cana’an”.  O nome Palestina, como vimos, só surgiu com os romanos. É uma corruptela de Filístia e, originalmente, significava apenas o litoral sul daquilo que hoje chamamos Palestina.

 

Não é possível para a mentalidade gentílica apreciar plenamente o sentimento do judeu para com a terra. Para ele, significava o cenário divino para a execução da salvação. A terra do judaísmo era uma parte da religião do judaísmo. A terra por excelência, a dádiva especial de Iaveh ao Israel eleito. 

 

Os hebreus formaram a sua primeira monarquia constitucional por volta do ano 1000 a.C. O segundo rei dos judeus, Davi, estabeleceu Jerusalém como a capital do país e seu filho Salomão liderou a construção do templo de Jerusalém. 

 

Mais tarde, nos anos da ocupação helênica, Israel estava restrito ao distrito de Iahud (Judá), delimitado desde a época do império persa. A capital de Iahud era Jerusalém, mas também pertenciam ao distrito as cidades de Emaús, Belém, Mizpá, Betel e Lida. O distrito de Iahud era uma pálida lembrança da eretz Israel dos tempos de Davi e Salomão.

 

Durante a guerra dos macabeus, Israel foi reconquistando seu território histórico. E sob o governo de Alexandre Ianai (102 a 72 a.C.) voltou a ocupar o máximo de sua extensão territorial. Essa Palestina histórica mede, aproximadamente, 20 mil quilômetros quadrados de área. Ao norte, encontram-se os picos elevados do Líbano e do antilíbano. No leste e sul - durante séculos - estiveram as habitações nômades dos beduínos (árabes) e o reino dos Nabateus. Esses vizinhos eram sinônimos de rixas permanentes. É importante notar que o conceito de limite não era preciso. Não havia uma fronteira legalmente estabelecida, delimitando a Palestina ou separando seus vários distritos. Não podemos, por exemplo, falar com precisão de uma linha demarcatória entre a Judéia e a Samaria.

 

Os diferentes distritos eram separados por uma orla indefinida, com um ou vários quilômetros de largura, reconhecida como terra de ninguém. As “partes de Tiro e Sidom” (Mt 15:21) eram a orla de terra entre a Galileia e a Fenícia, ocupada tanto pelos judeus como pelos gentios. E as “partes de Cesaréia de Filipo” (Mt 16:13) eram as faixas dos domínios de Filipe.

 

A Judeia, tendo Jerusalém como centro, era o verdadeiro coração da “terra”. Contudo, havia em torno da Palestina uma larga faixa territorial que o judaísmo considerava potencial e legitimamente “a terra de Israel”, Embora realmente não fosse assim. A Palestina está localizada no grande distrito desértico da Ásia sudoeste e, por isso, seu clima deveria ser bem seco. Entretanto, sua vizinhança com o mar Mediterrâneo vem mitigar em grande parte a situação.

 

Ali, o ano na Palestina pode ser dividido em duas estações: a úmida e a seca. A estação úmida começa em outubro e a seca em abril. Daí segue que a maior parte da semeadura acontece nos meses de inverno, a fim de aproveitar as chuvas, que em média são de apenas 50 a 60 centímetros por ano.

 

Quanto à temperatura, o clima da Palestina é temperado. A neve é rara, mesmo na Galileia, exceto nos pontos mais altos. A temperatura média é de 30c, subindo raramente acima dos 42o c no verão, ou caindo abaixo dos 18o c.

 

A topografia da Palestina define-se através de quatro caracteres físicos distintos. São a costa mediterrânea; as montanhas do Líbano, com sua extensão para o sul; o vale do Jordão; e as montanhas do antilíbano, também se estendendo para o sul.

 

A costa da Palestina é regular. Em todo o seu comprimento, a única baía de tamanho algo apreciável é a do Aco (Acre). Ao sul do monte Carmelo, o contorno da costa é praticamente reto, não oferecendo um porto natural. Mas ao norte do Carmelo há numerosas projeções pequenas de terra, que foram amplamente utilizadas pelos fenícios. As montanhas do Líbano e do antilíbano são divisões de uma longa cordilheira, que se ramifica a partir das montanhas do Cáucaso. A cadeia do Líbano desce até a península sinaítica, com duas interrupções: uma na planície do Esdraelom; a outra no deserto de Parã. Do Hermon, os montes antilibaneses mergulham subitamente para a planície de Basã, erguendo-se em seguida para o planalto de Gileade e Moabe, ponto em que a cadeia entra gradativamente em declive, resolvendo-se nuns poucos montes esparsos, situados no centro do deserto arábico.

 

Entre as montanhas do Líbano e antilíbano fica a vasta depressão que forma o vale do Jordão. Tanto o rio, como o vale, principiam no ponto em que a volumosa cadeia se divide, no norte da Palestina. O rio Jordão desce 216 quilômetros em direção ao mar Morto. A partir daí, o rio desliza gradativamente para o golfo de Ácaba.

 

Esta é a “eretz”. A terra da promessa e bênçãos divinas, terra de sagradas tradições e de proezas santas. Uma terra pequena, mas peculiar. 

 

No ano 70 d.C., os romanos destruíram o templo. Tudo o que restou de pé foi sua muralha ocidental, conhecido por todos como muro das lamentações, considerado pelo judaísmo como o local mais sagrado do mundo. Sendo assim, pessoas de vários países, judeus e não-judeus, visitam o muro em Jerusalém. Elas escrevem bilhetes com pedidos a Deus e os colocam entre suas pedras. 

 

Além de destruir o templo de Jerusalém, os romanos expulsaram os judeus de sua terra, dando início à diáspora, que significa a dispersão dos judeus para outros países do mundo. Contudo, apesar de terem sido conquistados pelos romanos, muitos judeus continuaram a viver na região. 

 

Por volta do século IX, comunidades judaicas foram restabelecidas em Jerusalém e Tibérias. No século XI, a população judaica crescia nas cidades de Rafah, Gaza, Ashkelon, Jaffa e Caesarea. Durante o século XII, muitos judeus que viviam na região foram mortos pelas Cruzadas, mas nos séculos seguintes, a imigração para a terra continuou. Mais comunidades religiosas judaicas se fixaram em Jerusalém e em outras cidades.

 

Um dos pontos fundamentais da fé judaica é que todo o povo será liderado de volta à terra e que o templo será restabelecido. Muitos judeus acreditam que o Messias, que será enviado por Deus, irá liderar o retorno de todo o povo judeu à terra. 

 

Contudo, muitos judeus acreditavam que eles próprios deveriam iniciar o retorno à terra. A ideia de estabelecer um estado judeu moderno ganhou grande popularidade no século 19 na Europa. Em parte isso foi fruto do aparecimento do anti-semitismo, que levou ao surgimento de pogroms – massacres organizados de judeus – na Rússia e na Europa Oriental. 

 

Esta violência notória contra judeus europeus ocasionou imigrações maciças para a Terra de Israel. Em 1914, o número de imigrantes vindos da Rússia para a Palestina já alcançava os 100 mil imigrantes. Simultaneamente, muitos judeus vindos do Iêmen, Marrocos, Iraque e Turquia imigraram para a região. Quando os judeus começaram, em 1882, a imigrar para seu antigo território em grande escala, viviam por lá menos de 250.000 árabes. 

 

Um jornalista austríaco chamado Theodor Herzl levou adiante a ideia do sionismo, definido como o movimento nacional de libertação do povo judeu. O sionismo afirma que o povo judeu tem direito ao seu próprio estado, soberano e independente, e cresceu como reação ao anti-semitismo e influenciado pelo nacionalismo na Europa.

 

No início do século 20, viviam na Palestina sob domínio do Império Otomano cerca de 500 mil muçulmanos e 50 mil judeus. Após a Primeira Guerra (1914-1918), a Palestina passou para mãos britânicas, cujo chanceler, Arthur Balfour, declarou, em 1917, apoio à "instalação de um lar nacional judeu" no local.

 

A população judaica na Palestina chegou a cerca de 300 mil na década de 1930, causando reação violenta dos árabes. Pressionada, Londres restringiu a imigração judaica à região, mesmo com o avanço nazista na Europa.

 

Após o Holocausto, que matou cerca de seis milhões judeus europeus, o movimento sionista ganhou força. A ONU aprovou a partilha da região em dois Estados, um judeu e outro palestino, com Jerusalém sob administração internacional. Os sionistas aceitaram a partilha, rechaçada pelos líderes árabes.

 

Argumentos judaicos a favor da terra

 

1. A terra de Israel foi prometida por Deus aos judeus. Esta é a antiga terra dos patriarcas e profetas bíblicos. As principais orações judaicas falam sobre o retorno do povo à sua cidade sagrada. As orações judaicas são feitas em direção a Jerusalém. Durante as festas judaicas, as orações são encerradas recitando a frase “ano que vem em Jerusalém”. 2. Desde que os judeus foram exilados pelos romanos, a terra de Israel nunca foi estabelecida como um estado. A região foi colonizada por diversos impérios, mas nunca voltou a ser um estado soberano. Foram imigrantes judeus que desenvolveram a agricultura e construíram cidades para restabelecer um estado no seu lar histórico. 3. O estado de Israel foi criado pelas Nações Unidas em 1947. É um estado democrático, moderno e soberano. 4. A terra de Israel foi comprada ou conquistada por Israel em guerras de defesa, após o país ter sido atacado por seus vizinhos árabes. 5. Os árabes controlam 99.9% do território no Oriente Médio. Israel representa apenas um décimo de 1% da região. 6. A segurança do povo judeu apenas pode ser garantida através da existência de um estado judeu forte e soberano.

 

A questão palestina e as guerras na região

 

A questão palestina surgiu como resultado do projeto de instauração do Estado de Israel e da decisão da ONU de dividir a Palestina em dois Estados. O Estado judeu ocupa uma área de 10 mil km², incluindo a Galileia oriental, a faixa que vai de Haifa a Telaviv e a região do deserto do Neguev até o golfo de Ácaba. O Estado palestino, associado à Jordânia, ocupa uma área de 11,5 mil km², incluindo a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Jerusalém recebe status internacional. 

 

A guerra de 1948 liquidou a decisão da ONU, já que o acordo de armistício de 1949 resulta na anexação da Cisjordânia pela Jordânia e na ocupação da Faixa de Gaza pelo Egito. Nenhum passo posterior é dado para implementar a decisão da ONU. A constituição de um Estado que representasse os 1,3 milhão de palestinos vivendo na região vira letra morta. 

 

Ao mesmo tempo, organizações extremistas israelenses, estimuladas pela omissão do Estado de Israel, das grandes potências e da ONU, desencadeiam ações terroristas contra os palestinos, visando expulsá-los e deixar o território livre para colonos judeus. O massacre de todos os 254 habitantes de Deir Yassin, em 1948, é o sinal para o êxodo em massa. Cerca de 300 mil palestinos permanecem em Israel após o êxodo para os países árabes vizinhos, mas sua situação é de cidadãos de segunda classe.

 

Argumentos palestinos a favor da terra

 

1. Os árabes muçulmanos viveram no local por muitos anos. 2. O povo palestino tem o direito à independência nacional e à soberania sobre a terra onde viveram. 3. Jerusalém é a terceira cidade sagrada na religião muçulmana, local de elevação do profeta Maomé aos Céus. 4. O Oriente Médio é dominado por árabes. Outras religiões ou nacionalidades não pertencem à região. 5. Todos os territórios árabes que foram colonizados tornaram-se estados completamente independentes, exceto a Palestina. 6. Os palestinos tornaram-se refugiados. Outros países árabes nunca os aceitaram completamente e eles vivem freqüentemente em campos para refugiados tomados pela pobreza. 

 

Algumas considerações finais

 

O conflito entre israelenses e palestinos é acima de tudo uma questão geopolítica e religiosa. Acreditamos que acontecimentos históricos que levaram tanto ao estabelecimento do estado de Israel quanto ao conflito entre palestinos e israelenses envolvem questões geopolíticas e religiosas que exigem a desmilitarização do conflito e a formação de estados leigos e democráticos que possibilitem a convivência pacífica entre os povos, com plena liberdade de expressão religiosa para todas as nacionalidades envolvidas no conflito. 

 

Para isso, é necessário que as grandes potências, em parte responsáveis por esta guerra geopolítica e religiosa, parem de favorecer esta ou aquela parte, esta ou aquela etnia, esta ou aquela religião. Sabemos que tal proposta esbarra na questão do petróleo e no desejo de controle geopolítico da região.

 

De todas as maneiras, não haverá paz na região e muito menos fim do terrorismo se as democracias ocidentais não respeitarem o direito a autodeterminação dos povos, suas culturas e crenças.