mardi 20 octobre 2026

O Apocalipse e seus três septenários

O Apocalipse e seus três septenários
Jorge Pinheiro


Introdução

O livro do Apocalipse não deve ser lido como fonte de argumentos em prol de iminente fim do mundo. Para fundamentar tal visão, partimos da análise de teólogos como Agostinho, de reconhecido peso na história da Igreja, e de teólogos contemporâneos como Schwarz. 

O núcleo do Apocalipse dispõe-se em três septenários, que recapitulam a história da humanidade e da Igreja sob forma simbólica, mostrando que as calamidades da história estão englobadas num plano sábio do Eterno. Este dirá a última palavra, mas o livro não permite calcular a data da consumação dos tempos ou da parusia do Cristo. O Apocalipse é um livro de conforto e esperança e não um livro de desgraças. Deve ser lido dentro dos parâmetros do gênero literário apocalíptico, que tem estilo e linguajar próprios. Quem não leva em conta tais peculiaridades corre o risco de deduzir do texto o que ele não quer dizer.

O Apocalipse, com seus símbolos, leva muita gente à tentativa de calcular a data do fim do século presente. Por isso, antes de qualquer coisa, vamos trabalhar com os critérios deduzidos do próprio gênero literário apocalíptico e apresentar os problemas suscitados pelo livro e as soluções mais plausíveis para o mesmo. 

Dividiremos a nossa exposição em quatro partes: (1) O que é um apocalipse? (2) O contexto histórico do Apocalipse de João. (3) A interpretação do Apocalipse. (4) Questões especiais. 

O que é um Apocalipse? 

A palavra grega apokálypsis quer dizer revelação. O gênero literário apocalíptico esteve voga entre os judeus nos dois séculos anteriores e posteriores a Cristo. A sua origem se deve ao fato de que os profetas foram escasseando em Israel após o exílio babilônico (587-538 antes da Era Comum) -- os últimos profetas bíblicos, Ageu, Malaquias e Zacarias, exerceram o seu ministério nos séculos seis e cinco antes de Cristo.

Após o século quinto o povo de Israel continuou sujeito ao jugo estrangeiro: retornando do exílio babilônico em 538 a.E.C., ficou sob o domínio persa até Alexandre Magno (336-323 a.E.C.) da Macedônia, que conquistou a terra de Israel, anexando-a ao Império Macedônico. 

Após a morte do Imperador, a Palestina ficou sob os egípcios (dinastia dos Ptolomeus) até o ano de 200 a.E.C. Nesta data, os sírios ocuparam e dominaram a terra de Israel, constituindo aí o período dos Antíocos ou Selêucidas. 

As novas ideias

As questões escatológicas que surgem durante o período Macabeu traduzem três tipos de preocupações: 1. Como Israel se libertará da dominação pagã e o reino de Deus se realizará? 2. Qual o destino último dos justos e dos pecadores? 3. Quando terminará o caos e a maldade na história?

Acontece que as guerras e as violentas transformações sociais vividas por Israel não levantaram apenas questões escatológicas, mas também éticas e políticas. Assim, durante esses anos de crise generalizada, a visão espiritual rompeu suas cadeias formais e permitiu uma produção multifacetada até então inédita na história judaica. Esquematicamente, podemos agrupar este processo de produção de novas ideias em três grandes grupos: nacionalista, de sabedoria e apocalíptico.

Para falar dos três é preciso entender que a visão profética clássica nasce de uma profunda compreensão do momento presente e do coração de Deus. Nesse sentido, o profeta clássico tem sempre um conhecimento da dialética do momento presente e, chamado pelo Eterno, apresenta sua vontade ao povo. Mas, o profeta não é apenas um analista crítico e sim um atalaia que prega uma postura correta diante do Eterno. Nesse sentido, a profecia clássica sempre foi também um exercício ético.

A história de Israel sob os Macabeus foi uma história de crise social. Tempo que permitiu o surgimento e necessitou a presença de profetas. Tempo onde a memória dos servos do Eterno emergiu com toda a sua radicalidade: Ele está ao lado do perseguido e contra o perseguidor. Esta memória se transformou numa visão global da história. E não nasceu da acomodação, nem da alienação diante da injustiça, mas da compreensão daquele momento presente e da vontade do Eterno para seu povo escolhido.

Sem dúvida, o Eterno falou a seu povo através de sábios e mestres, mesmo quando estes, para evitar a perseguição e o martírio, reeditavam antigos manuscritos, traduziam para a realidade presente histórias memoriais, e, sobretudo, omitiam seus verdadeiros nomes. Durante todo o período, antigas promessas foram apresentadas com maiores detalhes. Avivados pela palavra profética, o povo tomou conhecimento da revelação do Eterno. Se há na história da revelação um desenvolvimento gradual e se a base histórica da revelação é linear, mas o desenvolvimento da fé não o é, no período Macabeu chegou-se a um processo combinado, onde aspectos até então pouco definidos emergiram com claridade.

Dessa maneira, quer nos escritos éticos, quer nos escritos políticos, encontramos uma visão profética, resgatada da memória dos textos bíblicos antigos. Mas, sem dúvida, essa revolução do pensamento religioso judaico alcançará seu momento de maior expressão com a literatura apocalíptica.

Situamos na época dos Macabeus, período que vai da ascensão dos selêucidas até 67 a.E.C., a seguinte literatura: (1) Apócrifos Éticos (literatura de sabedoria): Tobias; Sentenças de Ieshua ben Sirah (Eclesiástico); Livro da Sabedoria de Salomão. (2) Apócrifos Políticos (literatura nacionalista): I Macabeus, II Macabeus. (3) Apócrifos Apocalípticos (literatura de revelação): Judite, II Esdras e Baruch. Entre os pseudepígrafos da era dos Macabeus, temos a Carta de Aristéia; o livro dos Jubileus; os Oráculos Sibilinos; Enoque (etiópico); e o Testamento dos Doze Patriarcas.

Como a profecia anterior, o apocalipse é uma revelação de aviso do julgamento do Eterno e promessa de salvação. Mas sob vários aspectos, é uma transformação na forma e conteúdo da experiência de revelação do judaísmo anterior.

Os profetas clássicos, por exemplo, falavam à sua própria sociedade, o que requeria imediatas escolhas políticas e éticas, que podiam afetar ou modificar o juízo divino iminente. Para eles, o futuro permanecia aberto, porque a decisão do Eterno poderia mudar, caso a comunidade se arrependesse.

Os apocalípticos, no entanto, encaram a história como um processo fechado e unificado, vendo a sua própria era como derradeiro elo de eventos que se desenrolam em sequência pré-ordenada. Ao contrário das promessas escatológicas da profecia clássica, que viam um “fim dos dias” no futuro distante, o autor apocalíptico crê que a meta está a seu alcance: está aqui o fim da dominação pagã, a completa salvação de Israel, a manifestação final do reino do Eterno na terra. O escritor apocalíptico oferece um panorama muito mais amplo da ascensão e queda de vastos impérios, mas seu interesse em relação ao mundo real e imediato é muito menor que o do profeta clássico. Seu olho focaliza outro mundo.

Outra diferença entre a profecia clássica e a literatura apocalíptica envolve sua proximidade com o reino do céu. Os profetas clássicos, com exceção de Ezequiel, eram reticentes nos relatos do que viam durante a revelação. Sua tarefa principal era comunicar a ordem oral e não apresentar uma descrição visual da corte divina. Já o apocalíptico descreve suas visitas ao céu com pormenores, mencionando os anjos pelos nomes e falando dos palácios, sala do trono e membros da corte celestial que cercam o divino rei.

O simbolismo misterioso e a ênfase na escatologia indicam uma ligação com a profecia tardia do pré-exílio, mas o pensamento apocalíptico deve muito à tradição da sabedoria helenística. 

O ponto mais importante de contato entre a literatura apocalíptica e a sabedoria grega é a idéia de uma ordem cósmica predeterminada. Anteriormente, foi a idéia de inacessibilidade que levou às meditações de Eclesiastes sobre a ilusão do esforço humano. Agora, a literatura apocalíptica traduz essa ordem em plano providencial do Eterno para a história.

A preocupação do escritor apocalíptico com o definitivo não cessa com a história. O poder do Eterno não pode ser limitado pela morte, de modo que a escatologia política é tanto pessoal como histórica. Assim, o capítulo doze de Daniel é o primeiro texto bíblico a referir-se claramente à ressurreição dos mortos: “alguns para a vida eterna, outros para a vergonha e desprezo eternos” (Dn 12.2). No final dos dias, os justos “que dormem no pó da terra” retornarão para “brilhar como as luminárias do firmamento... como estrelas, para todo o sempre” (Dn 12.3).

É importante notar que é no período Macabeu que a idéia da ressurreição toma corpo, a ponto de transformar-se numa idéia-força do judaísmo popular daí para a frente. A fé na ressurreição dos mortos aparece de forma muito clara em II Macabeus 7.9 e 14.46 e é o fundo da história do martírio dos sete irmãos (II Mc.7.11, 14, 23, 29 e 36). Antes, só temos em todo o Antigo Testamento dois versículos que falam da ressurreição (Is 26.19 e Jó 19.26s).

Outras obras importantes que fazem parte da literatura apocalíptica da época -- embora considerados apócrifos e pseudepígrafos, por não estarem no cânon judaico -- são os livros de Enoque, II Esdras e Baruch.

Enoque é uma obra longa, uma edição de fragmentos vários. No correr do livro, o narrador Enoque (Gn. 5.21-24) descreve suas visitas aos extremos da terra e sua ascensão aos palácios celestiais. O livro inclui um tratado sobre astronomia, poemas sobre o destino derradeiro do justo e do pecador, e uma seção chamada Similitudes, referente ao eleito ou Filho do Homem, que será mandado pelo Eterno nos últimos dias para julgar a humanidade.

Em II Esdras, o narrador sente-se perplexo ante as calamidades que recaem sobre Israel, o aparente abandono em que o Eterno deixa seu povo e pergunta por que tão poucos merecerão a vida eterna. Um anjo dá a Esdras conta do significado da história e seu fim, instruindo que escreva e esconda “setenta livros” que consolarão os que viverem antes dos últimos dias.

Baruch, de quem se diz ter sido escriba de Jeremias, trata de questões similares. Contém uma oração de confissão e de esperança, um poema sapiencial, no qual a sabedoria é identificada com a Lei, um trecho profético, onde Jerusalém personificada se dirige aos judeus da diáspora e onde o profeta a encoraja com a evocação das esperanças messiânicas.

A importância dessa coleção de textos sob o nome de Baruch é nos levar às comunidades da diáspora e de nos mostrar como a vida religiosa também lá, distante, estava relacionada com Jerusalém, pela oração, pelo culto à Lei, pelas promessas proféticas e pelo espírito messiânico.

Assim, a partir dos diferentes textos apocalípticos podemos definir os elementos formais desse gênero de literatura: 

(a) A pseudonímia do autor. É um contemporâneo dos seus primeiros leitores, mas fala como se fosse um personagem antigo.

(b) O caráter reservado das revelações. Estas foram comunicadas ao personagem da Antiguidade; deviam, porém, ficar em segredo até os dias do autor do apocalipse. 

(c) Frequentes intervenções de anjos. Estes aparecem, nos apocalipses, ora como ministros do Eterno que colaboram com a Providência Divina na dispensação da salvação, ora como intérpretes das visões ou revelações que o autor do livro descreve. Cf. Ez 40.3; Zc 2.1s; 2.5-9; 5.1-4; 6.1-8; Ap 7.1-3; 8.1-13. 

(d) Simbolismo singular. Animais podem significar pessoas e povos; feras e aves representam geralmente as nações pagãs; os anjos bons são descritos como se fossem homens, e os maus como estrelas caídas. O recurso aos números é frequente, explorando-se então o simbolismo dos mesmos -- 3, 7, 10, 12, 1000 como símbolos de bonança; 3 ½, como símbolo de penúria e tribulação. É a exuberância do simbolismo dos apocalipses que torna difícil a compreensão dos mesmos. O leitor deve entender esse simbolismo a partir de passagens bíblicas e extra-bíblicas paralelas. Há símbolos que se repetem com a mesma significação: gafanhotos, águias, cedro, três anos e meio, mil anos ... Os autores de apocalipses se sentem livres para conceber seus símbolos, suas visões e personificações. Propõem cenas sem se preocupar com o verossímil da realidade. Nesse sentido constroem virtualidades, conforme vemos na descrição da Jerusalém futura em Ez 47.1-12 e Ap 21.1-7. 

(e) Forte escatologia. Os apocalipses se voltam todos para os tempos finais da história e os descrevem apresentando a intervenção do Eterno em meio a um cenário cósmico, o julgamento dos povos, o abalo da natureza, a punição dos maus e a exaltação dos bons, estando reservado para Israel nesse contexto um papel de relevo e recompensa.

Este traço diferencia a profecia do apocalipse. A profecia é sempre uma palavra dita em nome do Eterno (propheemi = dizer em lugar de). Nem sempre visa ao futuro, refere-se muitas vezes a situações do presente, procurando sacudir os homens de sua indiferença ou da hipocrisia de vida, levando-os a conduta moral digna e correta. A profecia tem um caráter moralizante, válido para os contemporâneos, mas nem sempre voltado para a escatologia. 

Nos apocalipses o foco moral perde força: o que preocupa João são os acontecimentos finais da história, que redundarão em derrota definitiva dos maus e prêmio para os bons. Os símbolos e visões, que os profetas já cultivavam, tornam-se os elementos dominantes na forma literária dos apocalipses. 

Assim, durante o período Macabeu muitas idéias novas afloraram em meio à vida judaica. Podemos citar desde o ressurgimento da figura da mulher, com a história de Judite e a personificação da sabedoria (Eclesiástico 24), o casamento monogâmico, o batismo, e elementos conceituais da doutrina do Espírito Santo. Mas, sem dúvida, duas idéias revolucionaram o judaísmo: (1) A recompensa apresentada pelas profecias apocalípticas, que se traduz concretamente na ressurreição; (2) e a promessa da autoridade profética, restauradora da justiça, apresentada na figura do Messias.

Essas duas idéias deram uma vida nova ao judaísmo, fazendo com que transcendesse às formalidades das leis e rituais. A partir desse momento, surgiu um judaísmo da pessoa comum, cheio de fé na aparição iminente do Messias e na recompensa divina através da ressurreição. Esse judaísmo ocupou as ruas, subiu os montes, fugiu para o deserto. 

Os romanos em 63 a.E.C. invadiram o território palestino e impuseram seu jugo aos judeus, jugo que perdurou até que o povo de Israel foi expulso da sua terra no ano 70 da Era Comum, com a queda e ruína de Jerusalém. Nessas circunstâncias de vida o povo de Israel, não tendo profeta, sentia necessidade de ser consolado e alentado para não desfalecer. Foi então que autores judeus se puseram a cultivar o gênero literário apocalíptico, que tem afinidade com a profecia, mas não se identifica com esta. 

João tinha razões para consolar seus companheiros perseguidos e predizer a vitória final do bem sobre o mal, porque esta é anunciada pelas profecias e promessas feitas a Israel. O autor de um apocalipse nada acrescenta a essas promessas, apenas as tornam atuais, repetindo-as de maneira enfática em momento penoso da história do seu povo e anunciando para breve o cumprimento das mesmas. De resto, a salvação, já oferecida pelo Eterno em fases anteriores de tribulações de Israel, era penhor de que o Senhor não abandonaria seu povo. 

As circunstância de origem

No fim do século primeiro d.E.C. tornava-se cada vez mais penosa a situação dos cristãos disseminados no Império Romano. Em verdade, o Senhor Jesus deixou este mundo, intimando aos discípulos para que aguardassem sua volta gloriosa; não lhes quis indicar, porém, nem o dia nem a hora de sua vinda, pois esta deveria ser tida como a de um ladrão que aparece imprevistamente à meia-noite (cf. Mt 24.43; 1 Ts 5.2s); vigiassem, pois, e orassem em santa expectativa. Todavia, apesar da sobriedade das palavras de Jesus, os discípulos esperavam que a sua vinda se desse em breve, enquanto ainda vivesse a geração dos Apóstolos mesmos. À medida, porém, que se passavam os decênios, essa esperança se dissipava; a não poucos parecia que Cristo havia esquecido a sua Igreja e que vão era crer no Evangelho. 

A situação se tornara ainda mais angustiosa desde que Nero, em 64, desencadeara a primeira perseguição violenta contra os cristãos. Ser discípulo equivalia a ser tido como inimigo de César. Havia naturalmente um confronto entre mentalidade cristã e mentalidade pagã, e por viverem numa sociedade pagã, os cristãos se abstinham de participar de festas de família, das celebrações cívicas, dos jogos públicos, e de profissões e ramos de negócio, que traduziam a mentalidade politeísta e supersticiosa da época. 

Na Ásia Menor o ambiente estava carregado dessa presença do pensamento do pensamento pagão: o culto ao Imperador era ponto chave da fidelidade de um cidadão romano. Desde 195 a.C., Esmirna possuía um templo consagrado à deusa Roma. Em 26 d.C., as autoridades da cidade ergueram outro santuário em honra à Tibério, Lívio e ao Senado. Em Pérgamo, desde 29 a.C., se instituiu o culto ao Imperador. Na cidade de Éfeso, nos inícios do reinado de Augusto, foi construído um altar dedicado a ele, que ficava no templo de Diana. Os habitantes da Ásia Menor praticavam estes cultos e sentiam beneficiados pelos governantes de Roma, já que eles puseram fim às guerras civis na região, o que assegurou à população desenvolvimento da indústria, do comércio e da cultura. 

Outro perigo para o Cristianismo se fazia notar na Ásia Menor em fins do século I. As gentes dessa região era religiosa, de sorte que dava acolhida não somente às religiões tradicionais do Império e ao Cristianismo, mas também aos cultos de mistério de Mitra, Cibele e Apolo, trazidos do Oriente. Tais mistérios fascinavam pela sua índole secreta e por sua promessa de divinização. 

Esse estado de coisas permite tirar a seguinte conclusão: na Ásia Menor uma religião que, como o Cristianismo, professasse rigorosamente um Deus único e transcendente manifestado por um só Salvador, Jesus, devia necessariamente defrontar-se em breve com formidável aliança de todas as forças do paganismo: sistemas religiosos, interesses políticos, planos econômicos deviam armar-se num combate unânime e cerrado contra o monoteísmo cristão; ser discípulo de Cristo, em tais circunstâncias, significaria sofrer o ódio e o boicote geral de parentes, amigos e concidadãos não cristãos, de tal modo que até mesmo na vida cotidiana do lar o cristão se sentiria sufocado por causa de sua fé. 

Assim, o Império Romano realizou dez perseguições contra os cristãos, dirigidas por Nero (64), Domiciano (95), Trajano (112), Marco Aurélio (117), Sétimo Severo (fim do segundo século), Maximiano (235), Décio (250), Valeriano (257), Aureliano e Diocleciano (303).

A situação sugeria a não poucos discípulos de Jesus ou a apostasia em relação ao Divino Mestre ou uma espécie de pacto com as idéias do paganismo, de sorte a dar origem ao sincretismo religioso (caracterizado principalmente pelo dualismo ou o repúdio à matéria que a mística oriental muito propalava). Foi em tais circunstâncias sombrias que João quis escrever o Apocalipse. 

A finalidade do livro torna-se assim evidente. O autor visava, acima de tudo, alentar nos seus fiéis a coragem; o Apocalipse, em consequência, é essencialmente o livro da esperança cristã ou da confiança inabalável no Senhor Jesus e nas suas promessas de vitória. Pergunta-se então: como terá João procurado levantar o ânimo e corroborar a esperança dos leitores? Haverá, em nome de Deus, prometido dias melhores aqui na terra em recompensa da fidelidade a Cristo, de maneira que quem fosse hostilizado por causa do Senhor Jesus viria a ser estimado pelos concidadãos e acariciado por prósperas condições de vida temporal (economia feliz, saúde, sucesso nos empreendimentos...)? 

A interpretação do Apocalipse

Como se sabe, grande é o número de sistemas que tentam interpretar o Apocalipse. Todos concordam sobre o sentido geral do livro, que quer anunciar a vitória do Bem sobre o mal, do reino de Cristo sobre as maquinações dos pecadores. Divergem, porém, quando tentam indicar a época precisa em que o Apocalipse situa essa vitória. As diversas teorias se agrupam sob os títulos seguintes:

a. Sistema do fim dos tempos: João estaria descrevendo os embates finais da história. Esta interpretação esteve em voga na Antigüidade; foi posta de lado na Idade Média; do século XVI aos nossos dias é mais e mais prestigiada principalmente por parte de correntes que profetizam o fim do mundo para breve;

b. Sistema da história antiga (do século I aos séculos IV/V): o Apocalipse descreveria a luta do judaísmo e do paganismo contra os discípulos de Cristo, luta que terminou com a queda da Roma pagã (476) e o triunfo do Cristianismo;

c. Sistema da história universal: o Apocalipse apresentaria, sob a forma de símbolos, uma visão completa de toda a história do Cristianismo; descreveria sucessivamente os principais episódios de cada época e do fim do mundo. 

Todas estas interpretações são, de algum modo, falhas, pois não levam em conta suficiente o estilo próprio do livro e querem deduzir do Apocalipse notícias que satisfaçam aos anseios ou à curiosidade do leitor. Por isto, deixando-as de lado, propomos a leitura da recapitulação, proposta por Alio. Examinemos essa teoria:

A Recapitulação

Antes do mais, é necessário observar que nem todo o livro do Apocalipse está redigido em estilo apocalíptico. Compreende duas partes anunciadas em Ap 1.19: 

· 1.4-3.22: as coisas que são (revisão da vida das sete comunidades da Ásia Menor às quais João escreve); o estilo é sapiencial e pastoral;

· 4.1-22.15: as coisas que devem acontecer depois. Esta é a parte apocalíptica propriamente dita, para a qual se volta a nossa atenção. Observemos a estrutura dessa parte:

· 4.1-5.14: a corte celeste, com sua liturgia. O Cordeiro "de pé, como que imolado" (5.6), recebe em suas mãos o livro da história da humanidade. Tudo o que acontece no mundo está sob o domínio desse Senhor, que é o Rei dos séculos. Notemos assim que a parte apocalíptica do livro se abre com uma grandiosa cena de paz e segurança; qualquer quadro de desgraça posterior está subordinado a essa intuição inicial. 

O corpo do livro, que se segue, compreende três septenários: 6.1-8.1: os sete selos 8.2-11.18: as sete trombetas 15.5-16.21: as sete taças. Reflitamos sobre este núcleo central (de sentido decisivo) do Apocalipse. 

Pergunta-se: uma estrutura construída de forma tão sofisticada poderá ainda ser o reflexo imediato da história tal como ela é vivida pelos homens? Não seria, antes, o fruto de um arranjo lógico ou do trabalho de alguém que reflete sobre os acontecimentos e procura discernir alguns fios condutores por debaixo das diversas ocorrências da vida cotidiana?

Sabemos que o estilo de João é comparado ao voo de uma águia que gira em torno do objeto contemplado até finalmente dar o bote ou dizer claramente o que quer. Levando em conta esta peculiaridade de estilo, podemos dizer que o autor não expõe os sucessivos acontecimentos concretos da história do Cristianismo, mas apresenta a realidade invisível que se vai afirmando por trás dos episódios visíveis da história. 

Em outros termos: o Apocalipse apresenta (sob a forma de símbolos) a luta entre Cristo e Satanás, luta que é o fundo e a coluna dorsal de toda a história. Cada septenário (o dos selos, o das trombetas e o das taças) é uma peça literária completa em si mesma; o número sete, aliás, significa plenitude ou totalidade, segundo a mística dos antigos. 

A seguir, de 17.1 a 22.15, ou seja, após os três septenários, ocorre a queda dos agentes do mal:

§ 17.1-19.10: a queda de Babilônia (símbolo da Roma pagã);

§ 19.11-21: a queda das duas feras que regem Babilônia (o poder imperial pagão e a religião oficial do Império); 

§ 20.1-15: a queda do Dragão, supremo instigador do mal. 

Em contra-parte, a seção final (21.1-22.15) mostra a Jerusalém celeste, esposa do Cordeiro e antítese da Babilônia pervertida. Os versos 22.16-21 constituem o epílogo do livro. Aprofundemos um pouco mais o sentido do tríplice septenário central do Apocalipse. 

O primeiro, o dos selos (6,1-8,1), nos dá a ver a paulatina abertura do livro que está nas mãos do Cordeiro. É o septenário mais sóbrio e nítido, que, pode-se dizer, resume o livro inteiro; examinemo-lo de perto:

§ O primeiro selo corresponde a "um cavalo branco, cujo cavaleiro tinha um arco. Deram-lhe uma coroa e ele partiu vencedor e para vencer ainda" (5,2). O cavalo branco reaparece em 19,11-16; seu montador é o Senhor dos Senhores e o Rei dos Reis (19,16). - Conseqüentemente dizemos que o primeiro septenário se abre com uma figura alvissareira: a do Verbo de Deus ou Evangelho que, vencedor (porque já propagado no mundo), se dispõe a mais ainda se difundir. Sobre este pano de fundo vêm os três flagelos clássicos da história:

§ O segundo selo corresponde ao cavalo vermelho, símbolo da guerra (6,3s);

§ O terceiro selo é o do cavalo negro, símbolo da fome negra e da carestia que a guerra acarreta (6,5s);

§ O quarto selo é o do cavalo esverdeado, símbolo da peste e da morte decorrentes da guerra e da fome (6,7s). 

Aí estão os três flagelos que afligem os homens em todos os tempos e que a Bíblia freqüentemente menciona; cf. Lv 26,23-29; Dt 32,24s; Ez 5,17; 6,11-12; 7,15; 12,16. 

§ Depois disto, o quinto selo apresenta os mártires no céu pedindo a Deus justiça para a terra ou o fim da desordem que campeia no mundo. Reproduzem o clamor dos justos de todos os tempos ansiosos de que termine a inversão dos valores na história da humanidade. Em resposta, é-lhes dito que tenham paciência e aguardem que se complete o número dos habitantes da Jerusalém celeste; cf. 6,9-11. 

§ O sexto selo já nos põe em presença do desfecho da história: chegou o Grande Dia do juízo final (6,17). Aparecem então os justos na bem-aventurança celeste: os judeus representados por 144.000 assinalados, e os provenientes do paganismo, a constituir "uma multidão inumerável de todas as nações, tribos, povos e línguas" (7,9); celebram a liturgia celeste. 

Aqui se encerra propriamente o primeiro septenário; compreende em suas grandes linhas os aspectos aflitivos da história da humanidade e o anseio dos justos para que a ordem se restabeleça; a consumação da história é, para os fiéis, vitória e felicidade. A consolação que João quer transmitir aos seus leitores, consiste precisamente em mostrar que as calamidades sob as quais os homens gemem, estão envolvidas num plano sábio de Deus, onde todos os males estão dimensionados para que sirvam à salvação das criaturas e à glória do Criador. Eis aí a síntese do Apocalipse apresentada com clareza no primeiro septenário. 

§ E o sétimo selo (8.1) corresponde a um silêncio de meia-hora. Sim, o livro se abriu por completo. João espera a execução dos desígnios de Deus contidos no livro aberto. Este silêncio de meia-hora é o "gancho" que remete ao segundo septenário. 

O segundo e o terceiro septenários (8.2-11,18 e 15.5-16,21) retomam o conteúdo do primeiro com algumas variantes. Observemos, para começar, que terminam cada qual com a consumação da história (sétima trombeta em 11,1418 e sétima taça em 16.17-21). O segundo septenário tem em vista principalmente os flagelos que afligem o mundo profano: a terra, a vegetação, as águas, os astros... Ao contrário, o terceiro septenário tem em mira as sortes da Igreja perseguida pelo Dragão (Satanás) e seus dois agentes (o poder imperial pagão, que manipula a religião oficial do Estado pagão). Observemos dentro do segundo septenário o "gancho" do qual pende o terceiro septenário: em Ap 10,8-11 é entregue a João um livrinho, doce na boca e amargo no estômago. Como entender isto? -- O segundo septenário apresenta a execução do plano de Deus contido no livro cujos selos se abriram. Portanto, se deve haver outra série de revelações, deve haver também outro livro que as traga; é precisamente este que João recebe em 10,811 (amargo no estômago, porque portador de notícias pesadas para os cristãos fiéis). 

Merece atenção especial o intervalo ocorrente entre o segundo e o terceiro septenários, ou seja, a secção de 11,19 a 15,4. Ele prepara a série das taças, apresentando os grandes protagonistas da história da Igreja: a Mulher e o Dragão no capítulo 12; as duas Bestas, manipuladas pelo Dragão, sendo que a primeira sobe do mar (quem olha da ilha de Patmos para o grande mar, se volta para Roma) e representa o poder imperial perseguidor, ao passo que a segunda Besta sobe da terra (quem de Patmos olha para o continente próximo, volta-se para a Ásia Menor, onde campeia o culto religioso do Imperador); ver respectivamente Ap 13,1 e 11. 

A sede capital destes dois agentes é Babilônia (= a Roma pagã). O cap. 12, ao apresentar a Mulher e o Dragão, é também uma síntese da mensagem da Apocalipse e da história da Igreja, que será comentada na quarta parte deste estudo. - Como dito, os agentes do mal estão fadados a perecer, como se lê em 17,1-20,15, dando lugar à Jerusalém celeste e à bem-aventurança dos justos. 

Por conseguinte as calamidades que o Apocalipse apresenta a se desencadear sobre o mundo, não hão de ser interpretadas ao pé da letra; antes, depreender-se-á o seu sentido à luz das cenas de paz e triunfo que João intercala entre as narrativas de flagelos (enquanto os justos padecem na terra, há plena segurança no céu, conforme o Apocalipse). Justapondo aflições (na terra) e alegria (no céu), João queria precisamente dizer aos seus leitores que as tribulações desta vida estão em relação estrita com a Sabedoria de Deus; foram cuidadosamente previstas pelo Senhor, que as quis incluir dentro de um plano muito harmonioso, plano ao qual nada escapa. 

Em consequência, ao padecer as aflições da vida cotidiana, os cristãos deviam se lembrar de que tais adversidades não esgotam toda a realidade, mas são apenas as facetas externas e visíveis de uma realidade que tem seu aspecto celeste e grandioso. As calamidades sob as quais os cristãos do primeiro século se sentiam prestes a desfalecer, não os deveriam impressionar, constituíam como que o lado de baixo de um tapete que, visto no seu aspecto autêntico e superior, é um verdadeiro tapete oriental, cheio de ricas cores e belos desenhos. 

Eis a forma de consolo que João queria incutir aos seus leitores (não só do séc. I, mas de todos os tempos da história): os acontecimentos que nos acometem aqui na terra são algo de ambíguo ou algo que tem duas faces: uma exterior, visível, a qual é muitas vezes aflitiva e tende a nos abater; outra, porém, interior, invisível aos olhos da carne (mas perceptível aos olhos da fé), a qual é grandiosa e bela, pois faz parte da luta vitoriosa do Bem sobre o mal; é mesmo a prolongação da obra do Cordeiro que foi imolado, mas atualmente reina sobre o mundo com as suas chagas glorificadas (cf. c. 5). Por isto, enquanto os cristãos na terra gemem (Ai, ai, ai!), os bem-aventurados na glória cantam (Aleluia, aleluia, aleluia!). 

No céu os justos não se acabrunham com o que acontece de calamitoso na terra: continuam a cantar a Deus porque percebem o sentido verdadeiro das nossas tribulações. No dizer de João, essa mesma paz e tranqüilidade devem tornar-se a partilha dos cristãos na terra, pois, embora vivam no tempo e no mundo presentes, já possuem a eternidade e o céu sob forma de semente (semente da graça santificante, que é semente da glória celeste). 

Assim o Apocalipse oferece uma imagem do que é a vida do cristão e a vida da Igreja: é uma realidade simultaneamente da terra e do céu, do tempo e da eternidade. Na medida em que é da terra e do tempo, apresenta-se aflitiva. Este aspecto, porém, está longe de ser essencial: no seu âmago, a vida do cristão é celeste e, como tal, é tranqüila, à semelhança da vida dos justos que no céu possuem em plenitude aquilo que os cristãos possuem na terra em germe. 

1. DOIS TEXTOS EM PARTICULAR

Examinaremos Ap 12.1-17 e 20.1-10. 

Ap 12.1-17

Este capítulo sintetiza toda a história da Igreja sob a forma da luta entre a Mulher e o Dragão, figuras paralelas às da Mulher e da serpente em Gn 3.15. Este trecho apresenta uma Mulher gloriosa e sofredora ao mesmo tempo. Está para dar à luz um filho que um monstruoso Dragão espreita para abocanhá-lo. A Mulher gera seu Filho, que tem os traços do Messias. Ele escapa ao Dragão e é arrebatado aos céus. Dá-se então uma batalha entre Miguel com seus anjos e o Dragão, que acaba sendo projetado do céu sobre a terra, onde procura abater a Mulher-Mãe, perseguindo-a de diversos modos. Mas o próprio Deus se encarrega de defender a Mulher no deserto durante os três anos e meio ou os 42 meses ou os 1260 dias de sua existência. 

Vendo que nada pode contra essa figura grandiosa, a Serpente antiga atira-se contra os demais filhos da Mulher, tentando perdê-los. Que significa este capítulo? Está claro que o Dragão representa Satanás, aquele que é "mentiroso e homicida desde o início" (cf. Jo 8.44). 

Quanto à Mulher, não pode ser identificada com algum personagem individual, mas é a Mulher que perpassa toda a história da salvação. Com efeito; já à primeira Eva (mãe dos vivos) Deus prometeu um nobre papel na obra da Redenção. A primeira Eva se prolongou na Filha de Sião, o povo de Israel, do qual nasceu o Messias. A filha de Sião culminou na segunda Eva, a Igreja de Cristo. Por isso, em Ap 12.1 e seguintes, a Mulher é gloriosa, mas sofredora como o povo de Israel, pois os filhos que ela gera estão sujeitos a ser atingidos pela sanha do Dragão, que age neste mundo como um Adversário já vencido, mas desejoso de arrebanhar os incautos que lhe dêem ouvidos. Agostinho diz que o demônio é um cão acorrentado: pode ladrar, fazendo muito barulho, mas só morde a quem se lhe chegue perto. Por último, esta Mulher-Mãe, Igreja que exerce sua maternidade por toda a história da salvação, se consumará na Jerusalém celeste, a Esposa do Cordeiro (Ap 21 s). 

A batalha entre Miguel e o Dragão não corresponde à queda original dos anjos, mas significa plasticamente a derrota de Satanás, vencido quando Cristo venceu a morte por sua Ressurreição e Ascensão. Deus permite Satanás tentar os homens nestes séculos da história da Igreja, com um fim providencial, provar e consolidar a fidelidade dos crentes. Satanás só age por permissão de Deus. 

A duração de 1260 dias ou 3 anos e meio que a Mulher passa no deserto, não significa cronologia, mas tem valor simbólico. Com efeito, três anos e meio, 42 meses e 1260 dias são termos equivalentes entre si: correspondem à metade de sete anos. Sete é o símbolo da totalidade, da perfeição, da bonança e, por conseguinte, a metade de sete é o símbolo do que está inacabado, da dor. Portanto, três anos e meio (e as expressões equivalentes em meses e dias) no Apocalipse traduzem toda a história da Igreja na medida em que não é algo concluído, que é a penosa luta da Igreja entre a primeira e a segunda vinda de Cristo, no deserto deste mundo. 

Ap 20.1-10 

É este o trecho que fala de um aparente reino milenar de Cristo sobre a terra, estando Satanás acorrentado. O milênio seria inaugurado pela primeira ressurreição, reservada aos justos apenas, aos quais seria dado viver em paz e bonança com Cristo. Terminado o milênio, Satanás seria solto para realizar a seu ataque final, que terminaria com a sua derrota definitiva. Dar-se-iam então a segunda ressurreição, para os demais seres humanos, e o juízo final. 

A teoria milenarista, entendida ao pé da letra, foi professada por antigos escritores da Igreja: Justino (+165), Irineu (+202), Tertuliano (+ após 220), Lactâncio (+ após 317). Agostinho (+430) propôs novo modo de entender o texto, a partir a leitura de João 5.25-29, onde se lê: 

“Em verdade, em verdade vos digo, aquele que ouve a minha palavra... passou da morte para a vida. Em verdade, em verdade vos digo, que vem a hora, e já veio, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem viverão”. 

“Não vos admireis disto, pois vem a hora em que ouvirão sua voz todos os que estão nos sepulcros. Os que praticaram o bem sairão para a ressurreição da vida, os que, porém, praticaram o mal, sairão para a ressurreição do juízo". 

Nesse trecho, o Senhor distingue duas ressurreições: uma, que se dá "agora" ("e já veio"), no tempo presente, quando ressoa a pregação da Boa Nova: é espiritual e publicitada através do batismo; equivale à passagem da vida no pecado para a vida na graça que santifica. A outra é futura e se dará no fim dos tempos, quando os corpos forem transformados pela vida na graça por enquanto latente nos salvos. 

Assim, no Apocalipse a ressurreição primeira é a passagem da morte para a vida que se dá na conversão de cada cristão, quando este começa a viver a vida sobrenatural ou a vida do céu em meio às lutas da terra. A segunda ressurreição é, sim, a ressurreição dos corpos, que se dará quando Cristo vier em sua glória para julgar todos os homens e por termo definitivo à história. 

Mil anos, em Ap 20.1-10, designam a história da Igreja na medida em que é luta vitoriosa ("mil" é um símbolo de plenitude, de perfeição; "mil felicidades", na linguagem popular, são "todas as felicidades"). Pela redenção na cruz, Cristo venceu o príncipe deste mundo (cf. Jo 12.31), tornando-o semelhante a um cão acorrentado, que muito pode ladrar, mas que só pode morder a quem voluntariamente se lhe chegue perto (Agostinho). 

É justamente esta a situação do Maligno na época que vai da Encarnação à parusia do Cristo ou no decurso da história do Cristianismo. Por isto os três anos e meio que simbolizam o aspecto doloroso desses séculos (já estamos no vigésimo-primeiro século), são equivalentes a mil anos, caso queiramos deter nossa atenção sobre o aspecto feliz, transcendente ou celeste da vida do cristão que peregrina sobre a terra: a graça santificante é a semente da glória do céu. 

Assim se vê quanto seria contrário à mentalidade de João tomar ao pé da letra os mil anos do capítulo 20 e admitir um reino milenário de Cristo visível na terra após o término da história atual. 

Considerações finais

O sistema da recapitulação proposto merece a preferência aos demais, pois é o que mais leva em conta a mentalidade e o estilo de João. Este, também no seu Evangelho, recorreu ao estilo da recapitulação em espiral. Contudo não se pode negar as alusões do Apocalipse aos personagens e situações da história antiga -- Nero, a invasão dos bárbaros, Roma, Babilônia ... 

Mediante essas referências, João não tinha em vista deter a atenção do seu leitor sobre episódios da Antiguidade, mas mencionar tipos característicos de mentalidades humanas ou de situações de vida que acompanham toda a história da Igreja: assim Nero vem a ser o protótipo dos soberanos políticos que perseguem a Igreja em qualquer época -- há muitas reproduções de Nero através da história. Por isto também o número 666 da Besta do Apocalipse, adversária dos cristãos, equivale, segundo a interpretação mais provável, à expressão Kaisar Neron, Imperador Nero. 

Roma e Babilônia, por sua vez, designam de maneira típica o poderio deste mundo que, com seus mil atrativos de esplendor e prazer, procura seduzir os discípulos de Cristo para o pecado. A luta a que João assistiu, entre Roma pagã e a Igreja, é evocada no Apocalipse não por causa da luta propriamente dita, mas dentro de uma perspectiva mais ampla, isto é, a fim de simbolizar e predizer o combate perene que se vai travando entre o poder diabólico e Cristo através dos séculos, até terminar com a plena vitória do Senhor Jesus. 

Estas considerações concorrem para evidenciar quanto é vã a tentativa de descobrir a predição de fenômenos estranhos da hora presente (bombas atômicas, explosões, enchentes e secas, discos voadores) nos quadros do Apocalipse. Estes são quadros típicos e perenes, quadros que se reproduzem por todo o decorrer da história, variando apenas de aspectos. 

A sua mensagem abrange todas as situações análogas: querem, sim, dizer que as desgraças da vida presente, por mais aterradoras que pareçam, estão sujeitas ao sábio plano da Providência Divina, a qual tudo faz concorrer para o bem daqueles que 0 amam (cf. Rm 8.28). 

samedi 17 octobre 2026

Dieu est Brésilien



Jorge Pinheiro

Dieu est Brésilien : Brésilianités et le Royaume de Dieu
(Extrait) -- 4.2. La Terre est toujours ta noire entrave


Tu es le fou de l'immortelle folie,/ le fou de la folie la plus suprême./
La Terre est toujours ta noire entrave,/ elle t'enchaîne à l'extrême
Infortune./ Mais cette même entrave d'amertume,/ Mais cette même
Infortune extrême/ Fait que ton âme suppliante gémit/ Et éclate en
étoiles de tendresse. (« O assinalado », Cruz e Souza, première et
deuxième strophes).

En parcourant les chemins des brésilianités au cours des trois derniers
siècles, nous trouvons les racines qui expliquent la misère de la nation.
Les bannières de l'émancipation, de la démocratie et de la justice sociale
restent urgentes aujourd'hui autant qu'aux époques passées. Cesbannières,
sociales et politiques, traduisent la fragilité du protestantisme évangélique
au Brésil, qui, au cours des dernières
décennies, semble avoir beaucoup grandi, mais a peu fait en ce qui concerne
les exclus. Bien que le principe de la liberté religieuse ait été
partie intégrante de la foi des premiers baptistes anglais et que la lutte pour
la liberté soit vue comme un droit humain, il est important de rappeler que le
protestantisme historique brésilien, héritier des traditions sudistes
nord-américaines, s'il ne fut pas ouvertement esclavagiste, fut
condescendant et s'omit face à l'exclusion forcée des Noirs
africains kidnappés pour le Brésil et de leurs descendants, les
afro-brésiliens. Et l'histoire baptiste au Brésil le confirme.

La dénomination baptiste fut touchée par le divisionnisme
occasionné par les attitudes face à l'esclavage. En 1845, les baptistes
nord-américains se séparèrent selon leur position contre

l'esclavage. On organisa la Convention baptiste du Sud pour abriter les

églises qui admettaient le travail esclave, représentant des délégations

de huit États du Sud esclavagiste.129 Ce fut la Convention baptiste du Sud

des États-Unis qui établit la dénomination baptiste sur le sol brésilien.110

La guerre de Sécession, dans les années 1860, démontra la division existante

dans la société et dans le protestantisme états-unien.

« Dans les États libres, l'ascension des évangéliques de mentalité

réformiste avait donné un nouveau sens de direction et de dessein

moral à une classe moyenne ascendante tentant de s'adapter à une nouvelle

économie de marché. Le Sud, avec ses travailleurs captifs déportés

et ses Blancs pauvres et paresseux, semblait être, pour la majorité des

Nordistes, dans un processus de violation flagrante de l'éthique du travail

protestante et de l'idéal de la concurrence ouverte ».130

Après la défaite du Sud des États-Unis, beaucoup de confédérés,

y compris d'anciens combattants, vinrent tenter leur chance au Brésil,

notamment à São Paulo. La relation entre le protestantisme et la

vie politique, pour les agents de l'immigration nord-américaine vers le

Brésil, était envisagée de manière étroite. Une partie d'entre eux, pasteurs

protestants, à l'exemple du révérend B. Dunn, voyait le pays comme une

nouvelle Canaan où les confédérés défaits pourraient reconstruire

leurs vies, leurs foyers et leurs propriétés, y compris la main-d'œuvre

esclave. Dans son livre Brazil, The Home for Southieners, Dunn présenta

le pays de cette manière, ce qui aida les Sudistes à voir le Brésil comme

une alternative sûre. Le médecin M. F. Gaston, par exemple, vétéran

de l'Armée confédérée et originaire de Caroline du Sud, qui écrivit

Hunting a Home in Brazil, fit dans le livre un récit minutieux des

avantages que les Sudistes trouveraient ici. Le Sud-Est brésilien,

avec des terres presque vierges, était présenté comme une possibilité pour

de bonnes entreprises. Il dit, après avoir visité les terres de la région

de Campinas, que « les avantages pour la culture du coton dans cette région

lui donnent la primauté sur la partie méridionale des États-Unis. L'élément

additionnel du travail esclave est ici apte à apporter des résultats qui ne

peuvent être assurés par le travail salarié dans les États sudistes ; et dès

que les Noirs se seront familiarisés avec la manière adéquate de travailler le

coton, nous pourrons anticiper une production dépassant toute celle qui

a déjà été réalisée aux États-Unis ».131

La propagande de ces agents de l'immigration eut son effet : environ

deux mille cinq cents Sudistes se déplacèrent vers São Paulo. L'

espoir de trouver des terres en abondance avec de la main-d'œuvre

esclave mobilisa des familles entières. Et ainsi arrivèrent les premières

familles baptistes à la colonie de Santa Bárbara D'Oeste. Cependant, ni111

Dieu est Brésilien : Brésilianités et le Royaume de Dieu

tous les baptistes arrivés ici n'étaient favorables à l'esclavage. En

vérité, les baptistes eurent deux attitudes face à celui-ci : les premiers

colons étaient favorables et furent propriétaires d'esclaves. Quant aux

missionnaires et aux baptistes brésiliens en général, après l'abolition, en

1888, ils condamnèrent l'esclavagisme comme incompatible avec la foi chrétienne.

Ces différentes attitudes démontrent les difficultés qu'ils avaient

pour traiter le sujet. À Santa Bárbara D'Oeste, premier noyau

baptiste, le travail esclave exista comme main-d'œuvre utilisée dans

l'agriculture et dans les tâches domestiques. Les colons baptistes étaient maîtres

d'esclaves, à l'exemple de Madame Ellis, propriétaire d'un domaine et qui

avait procuré l'hébergement dans les premiers mois au couple de

missionnaires W. Bagby, fondateur de la Première Église baptiste du Brésil.

Selon le journal de Madame Bagby, « après avoir dormi une nuit dans

la capitale paulista, les missionnaires prirent le train pour Santa Bárbara, où

ils arrivèrent sous une forte averse. À la gare les attendaient les envoyés de

Madame Ellis, avec deux chevaux et un esclave, pour porter les bagages. Le

chemin jusqu'au domaine était bien boueux mais à l'arrivée, ils furent

chaleureusement reçus ».132

Comme le raconte Crabtree, la Junte de Richmond, aux États-Unis, en

évaluant, en 1859, les possibilités d'envoi de missionnaires pour le

Brésil, admit qu'il y avait des similarités entre les deux pays et un

avantage qui laisserait les missionnaires nord-américains bien

acclimatés en terres brésiliennes, le fait que, dans les deux pays, il y avait

l'esclavage : « le Brésil était comme les États-Unis, il avait des esclaves et les

missionnaires envoyés par la Convention baptiste du Sud ne pouvaient se sentir

contraints à combattre l'esclavage et ainsi s'impliquer dans la politique du

pays ».133

Et le missiologue baptiste Donaldo Price confirme les raisons d'un tel

choix : « Les premiers baptistes qui arrivèrent ici, arrivèrent comme

immigrants, non comme missionnaires. Ils arrivèrent après la défaite sudiste dans

la guerre entre les États, ou la guerre civile nord-américaine. Et ils voulaient venir

dans une nation qui avait encore l'esclavage, ainsi ils choisirent le Brésil ».134

Près de cent vingt ans après le décret qui reconnut le

droit du peuple noir à la liberté, l'idéologie du camouflage encore

se fait présente dans la pensée protestante. Ainsi, Oliveira constate

que « les Noirs dans les dénominations évangéliques sont placés à la place due

de l'animation de la communauté de foi, où leurs dons et talents sont utilisés pour

la motivation des cultes et des célébrations, mais peu de Noirs occupent les

postes de leadership et les commissions de pointe des matrices. Cette

constatation peut112 provoquer une discussion intéressante et, en même

temps, soulever la question suivante : la division n'est-elle pas déjà présente dans

l'univers évangélique national ? Les Noirs ont-ils, de fait, les mêmes

droits que les Blancs dans l'Église brésilienne ? »135

4.3. Lectures des culturalités

Pour comprendre la culture afro-brésilienne, il est important de

comprendre la religiosité africaine des orixás. Malgré sa

diversité régionale, la matrice africaine de la religion des orixás traduit,

dans son ensemble, la culture de la famille clanique, originaire d'un même

ancêtre, qui englobe vivants et morts.

L'orixá est l'ancêtre divinisé, qui de son vivant établit

des liens qui lui garantirent le contrôle sur certaines forces de la

nature. Le pouvoir de cet ancêtre, après sa mort, peut incarner,

pour une courte période, dans l'un de ses descendants à travers une

possession provoquée. Il est intéressant de noter que la mort de ces

ancêtres n'arrivait pas de façon naturelle, mais au milieu

d'événements qui impliquaient passion ou ire.

En ce moment de crise émotionnelle provoquée par la colère et

d'autres sentiments violents, ils subissaient des métamorphoses, leurs corps étaient

consumés par la passion, ne restant d'eux que le pouvoir. Mais, pour

que ce pouvoir puisse être approprié par ses descendants, il était

nécessaire que des membres de la famille enterrent un vase dans le sol,

avec environ trois quarts de sa hauteur. Dans ce vase ils recueilleraient le

pouvoir de l'orixá, qui commencerait à recevoir des offrandes et le sang

d'holocaustes. Ce culte unissait hommes et femmes à l'orixá, et ses

émanations étaient représentées par une pierre, un galet de rivière ou

par des symboles comme des outils ou arc et flèches. Ainsi, le pouvoir de

l'orixá ne devenait perceptible qu'à travers l'incorporation, ce qui

permettait à l'orixá de revenir sur terre pour recevoir des preuves de respect

de ceux qui l'évoquaient.

Dans les cultes à l'ancêtre, en s'incorporant l'orixá recevait sa

personnalité de retour avec qualités et défauts, goûts, tendances,

caractère agréable ou agressif. Pendant les cérémonies, les orixás

dansaient avec leurs descendants, écoutaient leurs plaintes, résolvaient

des désaccords et consolaient leurs infortunes. De cette manière, le monde

des orixás n'était pas distant du fidèle, ni n'était supérieur.

Dans les religiosités en Afrique, les orixás étaient liés aux

communautés et aux nations et les cultes étaient régionaux et même113

Dieu est Brésilien : Brésilianités et le Royaume de Dieu

nationaux. Les cultes étaient assurés par les prêtres, et les autres

membres de la famille ou de la communauté n'avaient d'autres devoirs que

celui de contribuer à la maintenance et au financement du culte, pouvant

participer aux chants, danses et fêtes qui accompagnaient les

célébrations. Ils devaient, cependant, respecter les interdictions alimentaires et

autres liées au culte de leur orixá.

Avec la traite des esclaves, les orixás furent apportés au Brésil

avec leurs descendants et restèrent liés aux familles qui

vinrent ici ou qui s'y formèrent. Et les prêtres des orixás

commencèrent à maintenir le culte pour ces familles et communautés.

Aujourd'hui, bien que les non-afro-descendants ne puissent revendiquer

des liens de sang avec les orixás, il peut exister des affinités qui favorisent

le culte. Afro-descendants et non-afro-descendants, pour les prêtres

des cultes aux orixás, ont des archétypes communs,136 comme la virilité,

féminité, sensualité, indépendance ou désir d'expiation,

qui correspondent à celui d'un orixá. Et, ainsi, cette religiosité

ancestrale commença à occuper son espace dans les terreiros et communautés de

descendance noire, marquant une présence définitive dans la

multiculturalité brésilienne.

Joaquim Nabuco fut le premier Brésilien à présenter une

vision globalisante de la formation historique et du rôle de l'africanité

au Brésil. Et il le fit dans une petite œuvre de propagande : O Abolicionismo.

Dans celle-ci, il montra que l'esclavage, qui dura trois siècles, ne

constituait pas un phénomène de plus, de sorte qu'il devrait être analysé

à égalité de conditions avec la monoculture et la grande propriété

agraire.

Pour Nabuco, ce fut l'esclavage qui forma le Brésil comme nation.

Elle est l'institution qui illumine la compréhension du passé. Et c'est à partir

d'elle que se définirent parmi nous l'économie, l'organisation sociale, la

structure de classes, l'État, le pouvoir politique et la culture elle-même. L'

esclavage fut le protagoniste par excellence de l'histoire brésilienne.

Historiens, sociologues et anthropologues commencent à comprendre ainsi ;

cependant, comme représentants de communautés de foi, les protestants,

rarement reconnurent cette dette intellectuelle, culturelle et sociale. L'

autoritarisme si typique de l'élite, la difficulté dans la construction de la

citoyenneté et l'exclusion sociale sont intimement liées à ces

trois cent soixante-dix ans d'esclavage et sont les héritages tragiques de

la brésilianité. Ainsi, l'esclavage généra misère et exclusion.114

Jorge Pinheiro

Nous devons comprendre que nos cultures sont relationnelles, ce qui

signifie que les relations entre les classes apparaissent de forme diffuse,

sur la base de relations sociales apparemment peu interventionnistes

devant une société civile incipiente, où l'interaction entre le

public et le privé se figure flexible et amorphe. C'est pourquoi, dans ces

cultures, les relations à l'intérieur des classes et, souvent, entre elles se

montrent plus gratifiantes que les motifs et fins qui donnèrent origine

à ces relations. Dans nos cultures relationnelles, les codes doivent

être compris à partir d'une double clé : il est nécessaire de partir des

matrices anthropologiques, mais on ne peut oublier les pressions

globalisantes. Et les matrices anthropologiques furent construites à

partir de la polarité de deux mondes et de deux réalités qui ont

leurs origines avec l'esclavage : la maison, en tant que dimension sociale

imprégnée de valeurs, d'espaces exclusifs et lieu moral, et la rue,

en tant que mouvement, travail, tripalium. Le tripalium donne origine au

mot travail. C'est un instrument de trois piquets utilisé pour fixer

des animaux quand on prétendait faire des interventions vétérinaires ou les marquer

au fer. Il fut utilisé par les Romains, puis au Moyen Âge et

postérieurement importé par les colonisateurs portugais. Il était

utilisé dans les fermes brésiliennes pour contenir les esclaves quand

punis ou marqués au feu. Cette situation traduit la relation existante

entre maîtres et esclaves. L'affirmation anthropologique du père

Antonil, notre premier économiste, au dix-huitième siècle, que « le Brésil

est un enfer pour les Noirs, un purgatoire pour les Blancs et un paradis

pour les mulâtres » n'est pas une constatation biologique.137 C'était un enfer

pour les Noirs parce que pour ceux-ci il n'y avait d'espoir que la

mort, généralement prématurée. Pour les Portugais c'était le purgatoire

parce que ceux-ci croyaient à la possibilité de faire fortune et de retourner au

Portugal. Et c'était un paradis pour les mulâtres parce que ceux-ci, déjà libres de

l'esclavage, pouvaient circuler entre Blancs et Noirs, croissant en

importance sociale par le rôle médiateur qui leur était confié.

Ainsi, le paradis ici est défini comme résultant d'une

relation culturelle. Locus du mulâtre ou mule, animal ambigu,

hybride, incapable de se reproduire en tant que tel. Malgré la grossièreté

raciste du terme, ce seront ces hommes et femmes métis qui ici

rompront la dualité culturelle, si typique des communautés

protestantes et calvinistes de l'autre Amérique, qui opposaient bien et mal,

dieu et diable.115

Dieu est Brésilien : Brésilianités et le Royaume de Dieu

L'expression mulâtre, raciste et colonialiste, conduisit à l'expression

pardo, qui fut adoptée officiellement dans le recensement de l'année 1872 avec l'

intention de comptabiliser de forme séparée les Noirs captifs, non

important s'ils étaient africains ou descendants, des Noirs nés libres

ou affranchis, non important s'ils étaient noirs ou descendants. Et ainsi le

terme entra dans le langage officiel, associé à l'identité métisse,

mais pas nécessairement associé à l'afro-descendance.

Telle classification, qui par son origine raciste et coloniale, généra

du mécontentement parmi les Brésiliens descendants de Noirs

africains, fut abandonnée dans notre travail, ainsi que l'expression

mulâtre/a. Nous avons opté pour les expressions afro-brésilien/ne et

afro-descendant/e parce qu'elles sont des concepts non dépréciatifs,

suggérés par les érudits noirs et parce qu'ils présentent ces

concitoyens comme brésiliens-d'origine-africaine.

Ainsi, avec la construction de la multiculture afro-brésilienne et avec

les afro-descendants se donnent des moments de synthèses qui traduisent

des cultures relationnelles. Excellent exemple est Macunaíma, un héros sans

aucun caractère, de Mário de Andrade. Dans les pays de culture

protestante bourgeoise, le négatif est ce qui est au milieu. Ici, ce qui est

au milieu est la vertu.

Manzatto138 analyse l'anthropologie des personnages

amadiens. Pour lui, Jorge Amado va au-delà du régionalisme et réalise

une synthèse magistrale des identités du Brésilien, extrapolant les

cadres esthétiques de la littérature, pour formaliser les bases des cultures

relationnelles brésilindiennes et afro-brésiliennes, bien qu'il ne fasse pas la critique

de ce qui se cache derrière et sous l'apparente cordialité du

Brésilien. Les cultures relationnelles cachent l'injustice sociale139 et l'

oppression sexuelle. Nous affirmons que le Brésil fut formé par des matrices

culturelles : blancs, indiens et noirs, ce qui filtré par les cultures

relationnelles conduit à une illusion, à un mensonge, comme si blancs, indiens

et noirs avaient opté pour la construction du pays. La vérité est que

les Portugais blancs et aristocratiques exterminèrent les indigènes et

esclavagèrent les Noirs. Mais de cette macération de peuples, ethnies, couleurs et

cultures surgirent les brésilianités présentes dans chaque coin de ce pays,

avec des richesses particulières, des diversités qui forment la

multiculturalité brésilienne.

Lévi-Strauss dans Le cru et le cuit nous conduit à connaître, par le biais d'une

approche structuraliste, comment fut déterminant dans le développement 116

de l'humanité le passage de l'alimentation crue à la cuite. À

partir du titre d'inspiration culinaire, Lévi-Strauss se réfère aux

exigences du corps et aux liens élémentaires que l'être humain maintient

avec le monde. Ainsi, à travers l'opposition apparemment triviale entre

le cru et le cuit, il présente la force logique d'une mythologie de la cuisine,

telle que conçue par les indigènes sud-américains. Ensuite, il met à

jour les propriétés générales de la pensée mythique, où nous découvrons

une philosophie de la société et de l'esprit. Et il est intéressant que cette

pensée mythique va imprégner la multiculture relationnelle brésilienne.

Au Brésil il y a des codes relationnels qui traduisent équivalence entre

nourriture et sexualité, qui ont comme fondement le plaisir, et présente

de nouveaux paramètres pour cru et cuit, qui relie aliment, nourriture

et sexe. Pour la multiculture brésilienne, l'aliment est ce qui maintient les

êtres vivants, la nourriture, ce qui donne plaisir, et le sexe est toujours un type

de nourriture. L'aliment est général et universel, mais la nourriture donne identité

et, en conséquence, qui mange a le contrôle. L'aliment cru par

excellence est la salade, quelque chose de peu de saveur, sans plus d'attraits,

différent de la nourriture qui est bien cuite, comme la bouillie ou le pirão. L'aliment

est ce qui est difficile à avaler, tandis que la nourriture est riz avec haricots, une

des synthèses des brésilianités. Héritiers que nous sommes des cultures des

plusieurs communautés indigènes et d'Angolais, Benguelas, Jejes, Nagôs

et autres, où le soin pour la préservation de la vie de la communauté

incombait à la femme, dans la multiculture brésilienne c'est elle qui fait le mélange et

qui donne la nourriture. C'est pourquoi, pour Amado, femme est dona Flor,

moquequeira, articulatrice d'épices, de lit et table. Ou Gabriela,

de clou de girofle et cannelle.

Dans la multiculture relationnelle brésilienne, le temps vécu dispute

avec le temps rappelé. Le temps vécu est la rue, le mouvement, c'est le

tripalium. Le temps rappelé est le rêve, c'est ce qui fut et qui devrait

continuer à être. Le temps vécu est la sueur et la fatigue. Et la fête est la

rupture du temps vécu. C'est le moment où le corps cesse d'être

usé par le tripalium et est usé par le plaisir. Peut-être pour cela, le plus grand

événement relationnel de l'afro-brésilianité est le carnaval. C'est le moment

du contraire. On échange le jour pour la nuit, la maison pour la rue. La règle est l'

excès. Ce n'est pas une fête de masques, mais de fantaisies. C'est une lecture

de la liberté considérée fin des règles et conventions. On vit la fin

de la misère, la fin de l'esclavage, la fin du pilori. C'est l'utopie

socialiste en version brésilienne, où tous nous sommes égaux devant la

possibilité du plaisir. Ou comme chante Ney Matogrosso :117

« Il n'existe pas de péché du côté en dessous de l'Équateur/ allons faire un

péché déchiré/ suant/ à toute vapeur/ laisse-moi être ton esclave/

larbin/ ta grappe/ diable/ ruisseau d'amour/ Vois si tu m'uses/ abuses/

barbouille/ que ta cafusa ne peut attendre/ quand la leçon est de

dérision/ regarde là/ sors de dessous/ que je suis professeur/ laisse la tristesse

là-bas/ viens manger/ viens dîner/ sarapatel/ caruru/ tucupi/ tacacá/ vois

si tu m'épuises/ mets-moi sur la table/ que ta hollandaise ne peut attendre/

laisse la tristesse là-bas/ viens manger/ viens dîner/ sarapatel/ caruru/

tucupi/ tacacá ». 140

Ces codes des brésilianités cheminent aux côtés de la question

raciale. La solution relationnelle pour l'injustice sociale fut le métissage

et pour l'oppression sexuelle, le syncrétisme. L'opposition entre les cultures

latines, les cultures indigènes et les cultures noires ne devinrent pas

irréconciliables, mais donnèrent origine à une diversité de synthèses, à la

multiculture populaire brésilienne. Cette multiculture métisse est entendue

comme la manière du Brésilien de vivre la vie, son goût pour la fête, pour la

musique, pour la danse, pour la nourriture et pour le sexe. Elle montre une forme de

vivre où la vie n'est pas quelque chose d'achevé et de défini, mais qui se va

construisant dans le concret du quotidien vécu. C'est une caractéristique

très spéciale de la multiculture relationnelle brésilienne, dans laquelle la vie

doit être réélaborée chaque jour. Ce ne sont pas des formes multiculturelles

fixes, mais elles vont se modifiant selon que l'on va vivant. Ces données

sont fondamentales pour comprendre la question de l'identité du

Brésilien. Son identité n'existe pas comme quelque chose de donné. Aussi l'

identité va étant construite et les éléments externes et les pressions

plus nouvelles, c'est-à-dire globalisantes vont étant dégluties et vécues dans

l'aujourd'hui que l'on vit.

Le concret et immédiat de la vie du Brésilien le conduit à être un être

relationnel. Plus que d'être situé devant les choses et la nature,

le se réaliser du Brésilien comme être se donne à travers le se relier.

Ainsi, il ne se considère pas prisonnier du destin, des forces des choses

ou de la nature. C'est un être qui cherche des alliés, soit pour la réalisation

de ses plaisirs, soit pour affronter les défis imposés par

des éléments ou réalités étrangères à son quotidien. À cette recherche d'

alliances, le Brésilien appelle amitié et compagnonnage. Et s'il

peut se relier avec ses pairs, il peut aussi le faire avec la

transcendance. Pour le Brésilien, le se relier avec le transcendant

118 ne signifie jamais une négation de l'humain.

De là l'intimité qu'il semble avoir avec la divinité. Et les religiosités

brésilindiennes et afro-brésiliennes, qui naquirent du syncrétisme, sont plus

que

« un simple mécanisme d'adaptation de migrants pauvres au milieu

urbain, une religion comme l'Umbanda, qui a grandi non seulement

parmi les classes basses, mais aussi parmi les moyennes, doit être vue

comme une syncrèse des traditions afro-brésiliennes et spirites. C'est pour cela

que la vraie clé de la compréhension de l'Umbanda réside dans la propre

société brésilienne, puisque cette religion est fruit de transformations

sociales et économiques qui eurent lieu dans le pays », 141 et sont des traductions

anthropologiques de la multiculturalité brésilienne,

y compris de ses codes relationnels.

De cette manière, « l'adhésion des masses urbaines à l'umbanda et au

pentecôtisme sont fréquemment expliqués en termes d'exposition

aux relations de production dans les villes. Ainsi, les personnes qui ne peuvent

recourir aux relations familiales existantes dans le champ entre

paysan ou

travailleur rural et son patron (lesquels bien qu'extrêmement

exploiteurs offrent au moins un type plus personnel de contact et

quelque type de 'protection') chercheraient des substituts dans des villes où les

relations capitalistes de travail laissent moins de marge pour des contacts

personnels et dans lesquels les employeurs n'ont pas d'obligations morales en

relation à leurs employés. Pentecôtisme et umbanda sont des religions

de masse importantes au Brésil. Pour certains secteurs de la population elles

ont des fonctions sociales et psychologiques significatives ».142

De cette manière, tant l'idéal de liberté que d'autres

caractéristiques du Brésilien traduisent une profonde dimension

collective. Cela n'élimine pas ou ne massacre pas sa personnalité, mais, dans la

majorité des cas, lui permet de la réaffirmer. Et le massacre n'arrive pas

parce que le Brésilien est collectif et communautaire, mais parce qu'il ne

survalorise pas les structures sociales. Ainsi, en méprisant les structures,

en niant toute réduction au rôle de simple engrenage, il réaffirme

l'amitié et la solidarité comme formatrices du collectif. Pour lui, la

liberté, l'amitié et la solidarité arrivent dans la communauté. Il est

difficile d'imaginer le Brésilien solitaire. Au contraire, l'image culturelle

et sociale que nous avons de lui, et que toute la multiculture populaire reflète, est celle119

Dieu est Brésilien : Brésilianités et le Royaume de Dieu

de l'homme et femme entourés d'amis, de connaissances et de parents. Sa

religiosité est toujours collective. Et sa spiritualité a une

forte nuance communautaire, que nous parlions de l'Umbanda ou du pentecôtisme

populaire.

Pour le Brésilien, la religion ne peut être vécue individuellement. L'

idée que la religion est question de for intime est une abstraction

blanche, calviniste ou tridentine. Au contraire, dans la multiculture

brésilienne tous discutent la religion de l'autre, opinent et veulent le voir

ensemble dans la même communauté. Et en relation aux fêtes cela ne pourrait être

différent. Et fête implique nourriture, musique et danse. En conditions

normales, le Brésilien ne mange ni ne boit seul. La

communauté est l'espace où sa personnalité et créativité atteignent

les niveaux les plus hauts.

Des raisons géographiques, historiques et raciales, dans les trois derniers siècles,

conduisirent au plongeon dans l'inconnu et plasmèrent chez le Brésilien

cette attraction pour l'aventure et pour le risque. Le Brésilien aime le défi,

non comme futur planifié, mais comme espace pour la créativité.

Pour lui, défi est toujours se lancer à l'aventure de la rupture de règles,

c'est dire non aux conventions et survivre par le courage. Quand il affronte

ces défis, qui vont de la survie sur le trapèze de l'économie

informelle à se transformer en Mané Garrincha sur les pelouses du

monde, il est de fait modelant son identité. Brésilindien143 ou

afro-brésilien,144 ne craint pas de plonger dans les défis de la culture blanche

et mondialisée. Aventure implique la possibilité de l'échec. Et

échec fait partie du risque. Mais en vivant la dialectique de ce mouvement,

le Brésilien construit son identité, bien qu'à un prix très élevé.

En vérité, c'est en faisant ainsi qu'il se sent libre et donne des ailes à sa

créativité, sans se préoccuper de la construction du futur. Et si ce n'

était pas ainsi nous ne serions pas devant le Brésilien. La difficulté à

globaliser le Brésilien repose là : dans la cosmovision que la vie

humaine doit être entendue comme aventure et risque. Comme quelque chose qui

ne peut être planifié, organisé, dimensionné, mais vécu.

De cette manière, vivre est être ouvert au nouveau, au défi, à ce qui encore

ne fut pas vécu, ni même on a planifié vivre. L'action anthropologique

de l'afro-brésilien naît de la possibilité de choisir la vie qu'il rêve

vivre, qu'il a liberté pour choisir vivre. En ce sens, il veut

vivre chaque jour un nouveau rêve. Et comme pour lui fiction et réalité s'

entrelacent, sa plus grande construction est le carnaval, puisqu'il tourne autour de la

fête et du plaisir. Nourriture et sexe, football et carnaval surgissent, alors,

comme expressions majeures de la possibilité de l'utopie.120

Jorge Pinheiro, PhD.

mercredi 14 octobre 2026

Kaddish, vie, mort et royaume

[14/10 12:07] jorge pinheiro: Para leitores em francês, comprem na Amazon.
[14/10 12:07] jorge pinheiro: Kaddish: Vie, mort et royaume (French Edition)
https://a.co/d/0ehTGqTN

dimanche 11 octobre 2026

Une prédication




L'Église sur le Trône de Satan

Texte de base : Apocalypse 2:12-17


Frères, imaginez une église locale située au cœur d'une ville puissante, un centre de culture, de politique et de religion du monde antique. Une ville où la loyauté à l'empereur était une question de vie ou de mort, et où les autels dédiés aux dieux païens dominaient le paysage. Telle était la réalité de l'église de Pergame.

Jésus s'adresse à cette congrégation avec un message qui est à la fois un éloge émouvant et une réprimande sévère. Et ce faisant, Il nous parle directement, à nous, l'église du XXIe siècle, qui vivons également dans une société aux valeurs souvent contraires à l'Évangile. Le message à Pergame est un miroir pour nos vies aujourd'hui.

1. L'Éloge : Fidélité au Milieu de la Pression (v. 12-13)

Jésus commence par s'identifier de manière puissante : « Celui qui a l'épée aiguë à deux tranchants ». Ce n'est pas l'image d'un agneau doux, mais du Roi et Juge divin, dont la parole coupe et juge les pensées et les intentions du cœur (Hébreux 4:12). C'est à cette autorité que l'église doit rendre des comptes.

Et sa première déclaration est un encouragement : « Je sais... ». Jésus voit leur réalité. Il reconnaît qu'ils « demeurent là où est le trône de Satan ». Pergame était un centre de culte impérial et abritait le grand autel de Zeus, une merveille du monde antique, mais un symbole d'idolâtrie et d'oppression démoniaque. Vivre la foi chrétienne là-bas était dangereux.

Et l'église fut fidèle ! Ils n'ont pas renié la foi, même face au martyre d'Antipas, appelé par Jésus « mon témoin fidèle ». Ils sont restés fermes sous la pression externe de la persécution. C'est une église courageuse, qui n'a pas cédé à la peur. Combien d'entre nous aujourd'hui restent fidèles dans leur « trône de Satan » – sur le lieu de travail, à l'école, dans la culture populaire – où confesser Christ peut nous coûter notre popularité, des opportunités ou même plus ?

2. La Réprimande : Tolérance au Milieu d'une Doctrine Corruptrice (v. 14-15)

Mais la fidélité sous la pression externe n'est pas toute l'histoire. Jésus a « quelques choses contre » eux. Le problème n'était pas qu'ils pratiquaient le mal, mais qu'ils toléraient le mal parmi eux.

Il désigne deux groupes :

· Les partisans de Balaam (v. 14) : Balaam était le prophète qui, dans l'Ancien Testament, ne put maudire Israël, mais enseigna aux Moabites à les entraîner au péché par l'immoralité sexuelle et la nourriture sacrifiée aux idoles (Nombres 31:16). C'était un péché de compromis – une tentative de mélanger l'adoration de Dieu avec les pratiques païennes.
· Les Nicolaïtes (v. 15) : Une secte qui promouvait une libertinage similaire, arguant que la liberté dans la grâce permettait de participer aux fêtes immorales des temples païens.

Le péché de Pergame n'était pas l'apostasie, mais la tolérance complaisante. Ils ont résisté à l'attaque frontale de la persécution, mais cèdent à l'attaque sournoise du compromis. Ils n'ont pas expulsé l'erreur ; ils ont permis qu'elle coexiste pacifiquement avec la vérité. Et que dit Jésus à ce sujet ? Il déteste ces pratiques (Apocalypse 2:6).

Pour nous aujourd'hui, la question est : où sommes-nous tolérants envers le péché dans notre communauté ? Où acceptons-nous des doctrines qui compromettent l'Évangile au nom de « l'amour » ou de « l'unité » ? Où nous conformons-nous à l'immoralité sexuelle, à la cupidité ou à l'idolâtrie de notre temps, par peur de paraître « radicaux » ?

3. L'Appel à la Repentance et la Promesse (v. 16-17)

La réponse de Jésus est immédiate et claire : « Repentez-vous ! ». Le mot grec est metanoeite – changez de mentalité, changez de direction. La correction n'est pas une suggestion, c'est un ordre. Et il y a un avertissement solennel : s'ils ne se repentent pas, Il viendra Lui-même combattre ceux qui promeuvent l'erreur « avec l'épée de sa bouche ». La même parole qui sauve juge aussi.

Mais pour ceux qui écoutent et se repentent, il y a une promesse glorieuse, triple et profondément significative :

1. La Manne Cachée (v. 17) : Dans le désert, la manne soutenait le peuple de Dieu. Jésus est le vrai pain du ciel (Jean 6). La « manne cachée » parle d'une communion intime, profonde et nourrissante avec Christ Lui-même, une réalité spirituelle que le monde ne peut ni voir ni enlever. C'est le soutien pour ceux qui rejettent la « nourriture sacrifiée aux idoles ».

2. La Pierre Blanche (v. 17) : Dans le monde antique, une pierre blanche pouvait signifier plusieurs choses : un vote d'absolution au tribunal, un ticket d'entrée pour une fête spéciale, ou un symbole d'identité et d'appartenance. Pour le chrétien, c'est un symbole du pardon complet et de l'acceptation totale par Dieu. Nous sommes absous par Christ.

3. Le Nom Nouveau (v. 17) : Dans la Bible, un nouveau nom représente une nouvelle identité, un nouveau caractère et une relation intime avec Dieu (ex : Abram/Abraham, Jacob/Israël). C'est un nom que seul celui qui le reçoit connaît, symbolisant la connaissance personnelle, profonde et unique que Dieu a de chacun de ses enfants fidèles. C'est notre vraie identité, cachée avec Christ en Dieu.

Pour penser et vivre 

L'église de Pergame nous enseigne qu'il ne suffit pas de résister à la persécution externe ; nous devons aussi combattre le compromis interne. Le courage qui nous fait affronter le « trône de Satan » doit être le même qui nous conduit à rejeter « l'enseignement de Balaam » parmi nous.

Jésus nous appelle aujourd'hui à examiner notre vie et notre communauté : Avons-nous été fidèles sous la pression ? Et avons-nous été courageux pour confronter l'erreur et le péché que nous tolérons ? L'appel est à la repentance – un changement d'esprit et de pratique.

Et pour tous ceux qui écoutent et se repentent, qui « remportent la victoire », la promesse demeure. Vous recevrez le soutien intime de Christ, l'absolution complète du Père et une nouvelle identité éternelle. Puissions-nous être une église non seulement courageuse face au monde, mais aussi pure devant notre Seigneur.

Que Dieu nous donne des oreilles pour entendre ce que l'Esprit dit à l'église.

Plan pour la Prédication :

1. Le Contexte : Une Église Sous le Trône de Satan (v. 12-13a)
2. L'Éloge : Fidélité Courageuse (v. 13b)
   · La Pression Externe
   · La Fidélité Témoignante
3. La Réprimande : Tolérance Dangereuse (v. 14-15)
   · L'Enseignement de Balaam : Compromis
   · L'Enseignement des Nicolaïtes : Libertinage
   · Le Danger de la Complaisance
4. L'Appel : Repentance Urgente (v. 16)
   · L'Ordre de Christ
   · La Conséquence de la Désobéissance
5. La Promesse : Récompense Éternelle (v. 17)
   · La Manne Cachée : Communion Intime
   · La Pierre Blanche : Absolution et Accès
   · Le Nom Nouveau : Identité et Relation

Pergame était une ville importante au premier siècle, située au nord-ouest de l'Asie Mineure (actuelle Turquie), qui fonctionnait comme un centre politique et religieux de la province romaine d'Asie. À cette époque, bien qu'elle fût sous domination romaine, la ville portait l'héritage de son passé de capitale culturelle de la période hellénistique.

Située au nord-ouest de l'Asie Mineure, dans la région de la Mysie (actuelle ville de Bergama, Turquie).
Statut Politique : Partie de l'Empire romain et l'une des principales villes de la province d'Asie.

Contexte Religieux : Principal centre du culte à l'empereur en Asie. Abritait des monuments païens, comme le Grand Autel de Zeus.

Communauté Chrétienne : Abritait l'une des « Sept Églises de l'Apocalypse » mentionnées dans le livre biblique de l'Apocalypse.

Contexte Historique et Héritage Culturel

Avant de devenir une ville romaine, Pergame fut la capitale d'un puissant royaume hellénistique, gouverné par la dynastie des Attalides (281-133 av. J.-C.). Cette période a laissé un héritage culturel profond :

· Centre de Connaissance : Elle abritait la deuxième plus grande bibliothèque du monde antique, dépassée seulement par la Bibliothèque d'Alexandrie, avec environ 200 000 volumes. C'est à Pergame que le parchemin (en grec, pergamenos) s'est développé et popularisé comme matériau d'écriture.
· Architecture Impressionnante : La ville était célèbre pour ses monuments, en particulier l'Acropole, qui comprenait le Grand Autel de Zeus (l'une des merveilles de l'art hellénistique, aujourd'hui au Musée de Pergame, à Berlin), le Théâtre et le Temple d'Athéna.
· Centre Médical : L'Asklépieion, un célèbre sanctuaire et centre de guérison dédié au dieu Asclépios, attirait des personnes de toute la région en quête de traitement.

Pergame dans le Contexte Biblique

Au premier siècle, Pergame a acquis une signification particulière pour les premières communautés chrétiennes. Elle est l'une des Sept Églises d'Asie abordées dans le livre de l'Apocalypse (Apocalypse 2:12-17).

La lettre adressée à l'église de Pergame décrit la ville comme le lieu « où Satan a son trône ». Cette expression forte se réfère probablement au fait que Pergame était le principal centre du culte à l'empereur en Asie, un culte que les chrétiens refusaient de pratiquer, au risque d'être accusés de trahison. La présence de nombreux autres temples païens, comme celui de Zeus et celui d'Asclépios, contribuait également à cet environnement religieux qui défiait la foi chrétienne.