bendita seja a eternidade, que traz as sombras da noite, abre os portais, modifica os momentos, troca os períodos e organiza as estrelas. bendita seja a eternidade, que traz as sombras da noite.
a primeira chave
o chão firme da liberdade
Por Jorge Pinheiro
digo à zlabya, aquela-que-anuncia, que o vento da justiça sopre sobre você, que a paz seja como riachos de águas, e que o fogo do amor traga alegria!
1.
querida zlabya, aquela-que-anuncia, estou escrevendo para você. escrevo do terceiro milênio, um futuro não muito distante, quase presente, para contar as coisas que vão acontecer e, ao mesmo tempo, poder conversar com você pessoalmente. você está no início da sua liberdade como pessoa grande, que pode escolher caminhos e destinos. escrevo sobre as memórias futuras, quando os descendentes darão voltas por este fundão besta, incluindo aí o que escutei e vivi. mas você não pode esquecer que a memória será sempre afetiva e seletiva. na verdade, ela apresentará os fatos que a gente viveu, a partir de um processo muito peculiar: dá primeiro as dores maiores, os momentos onde vivemos os limites da existência. mas não para aí. a memória fará sempre uma leitura épica, onde, por pior que tenha sido o momento, nos coloca como heróis.
mas se estou no futuro, posso falar do presente e do passado. é por isso que os velhos somos bons contadores de história e olhados pelos descendentes, e aí incluo você, como cavaleiros andantes de um futuro mítico. minhas experiências de amor e vida gerarão flores belíssimas, memórias que se multiplicarão com você.
as memórias são nossa história e minhas leituras, porque discorro sobre acontecimentos e nos levam a pensar o que não está aqui e agora, sobre o que é a eternidade. e quando isso acontece história e leituras se complementam e enriquecem as nossas vidas. o certo é que a memória ao apoiar-se nos fatos deixa de ser o relato de algo particular, vive um processo de amplidão que lhe dá grandeza. e a história, inversamente, ao recorrer à memória traz emoção e vida ao fato.
mas, como já disse parcialmente, acima, nossas memórias não se entreluzem apenas com fatos sociais, nossos pesadelos, assim como nossos sonhos transportam nossas memórias a um mundo mágico, um mundo onde o imaginário, às vezes, é tão real quanto a história vivida. transcende. por isso, essas leituras serão traduções de suas experiências com a eternidade, infinita e sem limites, criadora de todas as coisas, origem e fim do amor e da vida.
na antiga tradição dos longevos, o nome é som e designação que fala da natureza e da história daquele que está a ser nominado. os longevos falavam que a eternidade não poderia ter seu nome profanado porque seria violentar o sem-fim. e por isso somos chamados a calar diante do nome que não se pronuncia, separado para honra sem-fim.
os quatro sons dos longevos falam dessa infinitude, que nos apresentam a identidade e a história da eternidade sem-fim. até o ano de 586 antes da era comum, ou seja, até a destruição do primeiro templo, os longevos cantavam os quatro sons. mas depois optaram, por razões muito justas, em dizer com reverência meu senhor, meu senhor dos senhores. e mais tarde ainda, antes da era comum, meu senhor tornou-se, por causa do shemá aramaico, hashem.
quando estava diante daquele mato bravo que iluminado não pegava fogo, moshé ouviu o vento cantar eheieh acher ehieh. e entendeu que a eternidade dizia que ela era eterna sem-fim. mas, o vento não parou e cantou diferente iaueh acher iihueh, e assim moshé compreendeu que ela é quem dá vida ao que existe.
mas a eternidade sem-fim não é homem, nem mulher. por isso, ela pode ser também elohim, que parece macho e parece muitos. mas esse macho plural canta e diz que a eternidade é sem-fim e mãe de toda a vida, por isso é elohim ieuá. mas eu gosto de saber que essa eternidade linda e sem-fim, que é também macho e plural, é a guardiã das portas do vencedor, shomer daltot israel.
nessas memórias futuras apresento leituras para a sua vida presente, os dias fora e a caminhada em direção à última fronteira, o momento infinito de sermos os anjos que somos. quanta felicidade. esses acontecimentos farão parte da história de gentes e povos. muitos viverão textos parecidos e farão parte dessas memórias. alguns estarão ao seu lado e exercerão uma profunda influência em sua vida. outros apenas passarão. são personagens dos dias fora, e aparecerão com nomes e, às vezes, sobrenomes.
não há nesta atitude da memória nenhuma intenção de esconder a verdade, mas, ao contrário, o reconhecimento de que você ainda não atravessou a última fronteira. nesse sentido, nessas memórias os nomes mudarão conforme os lugares e tempos. jamais o nome traduzirá a fugacidade do momento, mas será a marca de uma vida.
quanto aos pesadelos, estarão presentes. é o inconsciente a revelar sua visão do mundo. é difícil dizer qual será maior: o pesadelo ou a realidade da dor. ambos serão terríveis e por isso se complementarão. e ficará mais fácil entender um no debruçar-se sobre o outro. é, inclusive, difícil dizer qual virá primeiro, já que o pesadelo poderá ser sentido como futuro que se faz presente, como leitura de um presente ainda não realizado.
ou como cantará um poeta: metade esquecida por mim, quero varar os limites impostos. e, assim, as histórias chegarão através da memória, que afetivamente virará leitura, a fim permitir a travessia da última fronteira com alegria.
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