dimanche 7 juin 2026

A fé de Abraão

“O Cavaleiro da Fé: O Silêncio, a Angústia e o Salto de Abraão”

Leitura bíblica: Gênesis 22.1-18
"Toma teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto..."

Irmãos e irmãs,

Há silêncios que falam mais alto que gritos. O silêncio de Abraão, ao subir o monte Moriá com seu filho Isaque, é um desses silêncios. A Bíblia diz: “levantou-se Abraão de madrugada” (Gn 22.3). Não lemos de lágrimas, nem de súplicas, nem de objeções. Apenas silêncio e obediência.

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em sua obra Temor e Tremor, ficou atônito diante desse silêncio. Ele percebeu que Abraão não pode ser explicado pela ética comum, nem pela razão. Pois se um pai mata o próprio filho, chamamos isso de assassinato. Mas se Deus ordena, e o homem obedece, aí surge o paradoxo da fé.

1. A suspensão do ético

Kierkegaard chamou Abraão de “cavaleiro da fé”. Para ele, o herói trágico (como Agamenon sacrificando Ifigênia) encontra consolo na lei universal: ele age pelo bem da pátria. Mas Abraão não tem nenhum consolo humano. Ninguém entenderia. Sara não entenderia. Isaque, perguntando “onde está o cordeiro?”, não entenderia.

Abraão suspendeu o ético. Não porque a moral seja inútil, mas porque a relação absoluta com o Absoluto exige um movimento que a razão não pode acompanhar. Como diz Hebreus 11.17: “Pela fé, ofereceu Abraão a Isaque, quando foi provado; sim, aquele que recebera as promessas ofereceu o seu unigênito.”

2. A angústia de ser um indivíduo diante de Deus

Kierkegaard escreve: “A angústia de Abraão era a de que ele mesmo tivesse de executar a obra que Deus ordenara.”
Não havia testemunhas. Não havia tribunal de apelação. Apenas Abraão, o cutelo e a promessa de Deus: “Em Isaque será chamada a tua descendência” (Gn 21.12).

Como conciliar “descer a faca” com “por Isaque virão nações”? Para a razão, é impossível. Para a fé, é exatamente nesse absurdo que ela nasce. Abraão acreditou no absurdo – que Deus devolveria Isaque, ainda que das cinzas do holocausto.

“A fé é uma paixão”, diz Kierkegaard. “Nenhum gigante do pensamento pode alcançá-la, porque ela começa onde o pensamento para.”

3. O movimento da resignação infinita e o salto da fé

Todo cristão é chamado a dar o primeiro passo: a resignação infinita – entregar aquilo que mais ama. Abraão amava Isaque mais que a si mesmo. E ele o entregou. Isso já é terrível. Muitos param aqui, vivendo uma fé amarga e resignada.

Mas o cavaleiro da fé dá um segundo movimento, que Kierkegaard chama de “o salto”: ele crê que receberá de volta o que entregou. Não como uma compensação triste, mas como um milagre novo.

Ouçam a promessa: “Deus proverá para si o cordeiro” (Gn 22.8). Abraão não sabia como. Mas ele esperou contra a esperança (Rm 4.18). E no monte, no instante em que a faca ia descer, o anjo do Senhor gritou: “Não estendas a mão sobre o rapaz!” (Gn 22.12).

4. O que isso significa para nós, hoje?

Irmãos, Abraão não é exemplo para ser imitado ao pé da letra. Deus não exige de nós holocaustos humanos. Mas o coração da prova é o mesmo:

· Deus pede que você entregue o seu Isaque – aquilo que você mais ama, sua segurança, seu projeto de vida, seu filho, seu sonho.
· A razão diz: “Isso é loucura. Você vai perder tudo.”
· A ética social pode dizer: “Isso é irresponsável.”
· Mas a fé sussurra: “Deus proverá.”

E muitas vezes, no último instante, Deus devolve Isaque transformado – não mais como propriedade sua, mas como um dom eterno.

Conclusão: O silêncio que se torna louvor

Kierkegaard termina Temor e Tremor perguntando: “Existe um movimento da fé, em virtude do absurdo, que faz com que o indivíduo, dando as costas ao mundo, entre numa relação absoluta com o absoluto?”

A resposta, gravada no monte Moriá e no Gólgota, é sim. Porque o Deus que pediu o filho de Abraão entregou Seu próprio Filho – Jesus – para que nós, que nada merecíamos, recebêssemos a vida.

Abraão recebeu Isaque de volta como em um segundo nascimento. Nós recebemos Cristo crucificado e ressurreto. E assim, a fé não é um grito desesperado, mas um silêncio que adora – e, no fim, uma voz que clama: “No monte do Senhor se proverá.”

Amém.

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