lundi 22 juin 2026

Mateus 5.27-30

Mateus 5.27-30.


Introdução

Desconcertar para fazer crescer.


«Se o teu olho direito te faz cair em pecado, arranca-o e lança-o para longe.» Eis uma palavra que choca. Ela chegou a fazer vacilar mais de um crente, que vê nela «vingança e ódio». E se fosse precisamente por isso que Jesus falava assim? Para nos fazer sair do moralismo, para despertar o nosso questionamento?


Uma leitura correta não procura aplicar estes versículos ao pé da letra — procura compreender o espírito, o movimento, o objetivo. Ela leva Jesus a sério, não como mais um legislador, mas como um revolucionário da interioridade.


1. O adultério do olhar: uma questão de poder, não apenas de desejo.


Jesus diz: «Todo aquele que olhar para uma mulher com cobiça já cometeu adultério com ela em seu coração.»


A leitura tradicional vê nisso uma condenação do desejo sexual fora do casamento. Mas uma leitura mais profunda, atenta ao contexto, escuta outra coisa: Jesus dirige-se a homens — homens que têm o poder de olhar, de julgar, de possuir. Numa sociedade patriarcal, o olhar masculino é um instrumento de dominação. A mulher é objeto, não sujeito.


Jesus não diz: «O desejo é mau.» Ele diz: O olhar que reduz o outro a um objeto de satisfação já é uma violação. Não é uma condenação da sexualidade, mas uma crítica à instrumentalização do outro.


Algumas teólogas feministas veem neste texto uma «preocupação com comportamentos muito abaixo do limiar da violência sexual». Jesus apela a uma ética do olhar que respeite a plena humanidade do outro.


2. A hipérbole: um convite à metáfora, não à automutilação.


«Arranca o teu olho, corta a tua mão.»


Ninguém, numa leitura atenta, leva isto ao pé da letra. Jesus usa uma hipérbole — um exagero intencional — para dizer algo radical: aquilo que te faz tropeçar na tua relação com o outro e com Deus, você deve separar-se disso, mesmo que custe.


Mas atenção: não se trata de se mutilar. Trata-se de desobstruir a vida dos hábitos, dos olhares, das cumplicidades que nos impedem de amar verdadeiramente.


Uma leitura correta leva à pergunta: Quais são, na minha vida, os «olhos» e as «mãos» que me tornam incapaz de ver o outro na sua dignidade? É a cultura do macho todo-poderoso, do estupro ordinário? São as palavras e/ou os silêncios que mantêm relações de dominação?


3. Uma ética da intenção, não uma moral da proibição.


Jesus não diz: «A lei é mais severa do que vocês pensam.» Ele diz: A lei não basta. A obediência exterior não muda o coração.


Isto é um gesto real: deslocar a moral do fazer para o ser. Não o que devo fazer para ser puro?, mas quem eu sou através da maneira como olho, como desejo, como me relaciono?


A questão não é a culpa. É a transformação. Jesus não quer pessoas que obedeçam; ele quer pessoas que amem, livre e plenamente.


4. Uma palavra para hoje: libertar o olhar.


No nosso mundo saturado de imagens, onde o corpo está constantemente exposto, mercantilizado, escrutinado, a palavra de Jesus é mais atual do que nunca. Mas ela não nos diz: fugi do desejo. Ela diz-nos: aprenda a olhar de outro modo.


Olhar sem possuir.

Desejar sem instrumentalizar.

Ver o outro como sujeito, não como objeto.


É uma ética da relação — e é talvez a mais bela das libertações.


Conclusão: A radicalidade do amor.


Este texto não é um apelo ao medo, nem ao inferno, nem à mutilação. É um apelo a levar a sério o poder do olhar, do desejo e da atenção. Jesus convida-nos a uma vida onde cada olhar é um ato de respeito, onde cada desejo é habitado pelo reconhecimento do outro.


«Melhor é perder um olho do que ver todo o teu corpo lançado no inferno». O inferno não é um lugar geográfico. É a vida que se desmorona, a relação que se estraga, a humanidade que se perde. E Jesus nos diz: o desafio é salvar, mesmo que isso implique em escolhas radicais.


Então, o que vamos olhar? E como? A questão está em aberto. E é aí que começa a nossa liberdade.