jeudi 25 juin 2026

O Cristianismo vermelho

O Cristianismo Vermelho: Fé e Política na Fundação do PT




Jorge Pinheiro dos Santos






APRESENTAÇÃO 




"O Espectro do Vermelho" analisa a relação entre cristianismo e política na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) brasileiro. O autor, Jorge Pinheiro dos Santos, teólogo, jornalista e ex-militante da Convergência Socialista, testemunhou diretamente o processo de formação do partido no final dos anos 1970. A obra combina rigor acadêmico com memória pessoal, explorando como o cristianismo social e diversas correntes socialistas convergiram para criar um partido operário inovador. O livro cobre o período de 1945 a 1999, com ênfase nos anos 1970-1980, e propõe uma leitura teológica do socialismo petista. A apresentação, escrita pelo professor Leonardo Tricot Saldanha, destaca a importância histórica e política do tema, especialmente no contexto das crises brasileiras contemporâneas. 



INTRODUÇÃO 




O Cristianismo vermelho livro investiga o fenômeno do Partido dos Trabalhadores como algo novo na história brasileira: um partido operário de massas com forte presença cristã. Diferentemente de tentativas anteriores (PCB, PTB, PSB), o PT conseguiu nuclear setores sindicais e trabalhadores fabris em todo o país. A pergunta central é: que partido é esse? Marxista-leninista? Social-democrata? O autor argumenta que o PT rompeu com os padrões clássicos ao incorporar praticamente todas as correntes ideológicas do socialismo — do stalinismo ao trotskismo, passando por social-democratas — além de uma presença cristã significativa, principalmente através das Comunidades Eclesiais de Base. O Cristianismo vermelho cobre os primeiros anos do PT (1979-1999) e não analisa os governos Lula ou Dilma. A abordagem combina análise histórica de documentos, resoluções de encontros e congressos, com memórias pessoais do autor, que participou da direção da Convergência Socialista. Três questões orientam a pesquisa: existe uma relação histórica entre cristianismo e socialismo? Como essa relação se deu na formação do PT? Esse socialismo com componentes religiosos difere do socialismo dos partidos comunistas do século XX? 





CAPÍTULO 1 
O Brasil e o socialismo de 1945 a 1980 




O capítulo analisa o pensamento socialista brasileiro no período de redemocratização após o Estado Novo. A partir da quarta tese de Marx sobre Feuerbach, discute-se a relação entre religião e sociedade. Marx argumenta que a religião reflete contradições sociais — o ser humano projeta no paraíso aquilo que lhe falta na terra. Gramsci, posteriormente, reinterpreta essa visão, afirmando que o cristianismo foi uma "necessidade histórica" e que o marxismo é herdeiro da Reforma Protestante e da Revolução Francesa. No Brasil, dois partidos polarizaram a esquerda pós-1945: o PCB (stalinista) e o PSB (socialismo democrático). O PSB, fundado em 1947 por dissidentes da Esquerda Democrática, defendia um "socialismo democrático" em oposição ao comunismo stalinista. Seus líderes, como João Mangabeira e Hermes Lima, propunham a socialização gradual dos meios de produção via parlamento, combinando socialismo e liberdade. O programa do PSB incluía reforma agrária, democratização da cultura e saúde pública, e autonomia sindical. Apesar de sua limitada expressão eleitoral, o PSB influenciou intelectuais e militantes que, após o golpe de 1964, migraram para organizações clandestinas. O capítulo mostra como essas ideias — socialismo democrático, rejeição ao stalinismo, combinação entre socialismo e democracia — foram sementes que germinariam no PT décadas depois. 



CAPÍTULO 2 
O trotskismo e a Nova Esquerda 




O capítulo traça as raízes do trotskismo brasileiro, desde a oposição de León Trotski a Stálin até sua influência na formação do PT. Trotski defendia a "revolução permanente" e criticava o "socialismo em um só país". Seu Programa de Transição (1938) argumentava que as premissas objetivas para a revolução proletária estavam maduras, mas faltava a direção revolucionária. Mário Pedrosa, principal líder trotskista brasileiro, difundiu essas ideias no PSB e influenciou gerações de militantes. O capítulo descreve a trajetória do Grupo Ponto de Partida, que evoluiu para a Liga Operária e depois para a Convergência Socialista — organização da qual o autor fez parte. A Nova Esquerda dos anos 1960, influenciada por Herbert Marcuse, Wilhelm Reich e Rosa Luxemburg, trouxe novas leituras do marxismo, incorporando questões de gênero, sexualidade, ecologia e crítica cultural. No Brasil, a Nova Esquerda se expressou através da Política Operária (Polop) e da Ação Popular (AP). A AP era particularmente interessante por sua síntese entre socialismo e catolicismo social, inspirada em Emmanuel Mounier e Jacques Maritain. Essas organizações, apesar de suas diferenças, compartilhavam a crítica ao stalinismo e a busca por um socialismo democrático e humanista. O capítulo mostra como essas correntes — trotskistas, nova esquerda, cristãos sociais — convergiram no final dos anos 1970 para construir o PT. 



CAPÍTULO 3 
Os militares e as raízes cristãs do PT 




O capítulo analisa a relação entre o cristianismo social e o regime militar brasileiro (1964-1985). Começa com a evolução da doutrina social da Igreja Católica: desde a encíclica Rerum Novarum (1891) de Leão XIII, passando pela Quadragesimo Anno (1931) e Divini Redemptoris (1937), até o Concílio Vaticano II (1962-1965) e a Conferência de Medellín (1968). Esses documentos estabeleceram os princípios da dignidade humana, solidariedade e opção preferencial pelos pobres — bases da Teologia da Libertação. No Brasil, essa teologia se expressou através das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que organizaram milhões de pessoas na luta contra a ditadura. D. Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, afirmou que as CEBs identificavam o "pecado-raiz" do capitalismo e que a Igreja deveria apoiar a criação de um partido trabalhista. Paralelamente, o protestantismo histórico brasileiro — especialmente os batistas — manteve uma relação ambígua com o regime. Embora o "Manifesto dos Ministros Batistas" (1963) tenha defendido reformas de base, após o golpe de 1964 a maioria da denominação alinhou-se ao governo militar, influenciada pelo anticomunismo da Guerra Fria e pela tradição conservadora da Convenção Batista do Sul dos EUA. O capítulo mostra como, apesar disso, setores cristãos progressistas foram fundamentais na resistência à ditadura e na construção do PT. 





CAPÍTULO 4 
O espectro do vermelho 




O capítulo analisa a fundação do PT e o espectro socialista que o animou. O processo começou com a "Tese de Santo André-Lins" (janeiro de 1979), aprovada no IX Congresso dos Metalúrgicos, que propôs a criação de um "partido dos trabalhadores sem patrões". A "Carta de Princípios" (1º de maio de 1979) definiu o PT como socialista e democrático. O partido foi oficialmente fundado em 10 de fevereiro de 1980, reunindo sindicalistas, intelectuais, cristãos sociais e militantes da nova esquerda. O capítulo descreve as diversas correntes internas: Democracia Radical, Articulação, Democracia Socialista, Convergência Socialista, entre outras. O PT se definiu como um partido "pós-comunista e pós-socialdemocrata", rejeitando tanto o socialismo real soviético quanto o reformismo social-democrata. O documento "O Socialismo Petista" (1990) afirmou que "o socialismo, para o PT, ou será radicalmente democrático, ou não será socialismo". No entanto, o capítulo mostra como a utopia socialista foi gradualmente "desencantada". O "Programa da Revolução Democrática" (1999) substituiu o horizonte socialista por reformas democrático-burguesas. O autor argumenta que o PT, inicialmente um partido de classe com projeto socialista, tornou-se um partido trabalhista pragmático, e depois um partido burguês reformista, abandonando a utopia socialista em nome da governabilidade. O capítulo termina com a pergunta: o sonho acabou? 



CAPÍTULO 5 
Leitura teológica do espectro do vermelho 




O capítulo final propõe uma leitura teológica da experiência do PT, utilizando o pensamento de Paul Tillich. O autor argumenta que a política e a religião não são excludentes — ambas lidam com questões de poder, justiça e sentido. Tillich distingue entre amor (voluntário, pessoal, sacrificial) e poder (coercitivo, impessoal, institucional). A justiça é a ponte entre eles: é a forma como o poder deve ser exercido para servir o amor. O cristianismo social, com sua ênfase na opção preferencial pelos pobres e na dignidade humana, tem um papel crítico a desempenhar dentro de um partido de trabalhadores: deve lembrar que a miséria não é apenas econômica, mas humana. O capítulo introduz o conceito de "kairós" — o tempo da revolução, da irrupção do novo. A utopia socialista é a espera/esperança do kairós. O autor argumenta que o PT, ao desencantar sua utopia, perdeu o sentido do kairós e se tornou refém do princípio burguês. A tarefa do cristianismo social é criticar tanto a utopia quanto o kairós, lembrando que a justiça é incondicional e que a fé cristã deve ser "infraestrutural" — não como superestrutura legitimadora do poder, mas como clamor dos excluídos. O capítulo conclui que o êxito do processo depende da integração entre teoria e práxis, e que o cristianismo social deve estimular os cristãos a se engajarem na política como "exercício de amor maior". 





CONSIDERAÇÕES FINAIS 




O livro conclui que o cristianismo social foi fundamental na formação do PT, oferecendo uma visão ética e utópica que complementava o socialismo democrático. A presença cristã no PT trouxe uma dimensão de solidariedade e justiça que ia além do materialismo histórico. No entanto, com o passar dos anos, o PT abandonou gradualmente sua utopia socialista, tornando-se um partido trabalhista pragmático e depois reformista. O autor argumenta que esse desencantamento da utopia é uma tragédia não apenas para o PT, mas para a política brasileira como um todo, pois deixou a classe trabalhadora sem uma representação política verdadeiramente transformadora. O cristianismo social, no entanto, continua sendo uma força crítica, lembrando que a política deve servir à justiça e à dignidade humana. O livro termina com um chamado à esperança: apesar das derrotas e do pragmatismo, o kairós — o tempo da revolução — pode sempre irromper novamente, desde que haja pessoas dispostas a manter viva a utopia socialista e cristã. 





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